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O texto que você vai ler (se quiser, é claro) foi escrito ao som de “Tears in Heaven”, a linda canção de Eric Clapton, que hoje completa 75 anos de vida. E poderia muito bem dedicar os próximos minutos para escrever por que o espetacular guitarrista é tão importante na minha vida.

Porém, tem um tema mais urgente: o fato daquele cara ter soltado a infeliz frase “todo mundo vai morrer um dia”.

Sabe… eu estou cansado e profundamente triste.

Estou tentando fazer com que o isolamento não me arraste para uma depressão profunda. Continuo a trabalhar, a produzir os meus textos e fazer piadas comigo mesmo e até com a situação ao meu redor que, de engraçado, não tem nada.

Aí vem esse cara e diz aos berros que “todo mundo vai morrer um dia”.

O problema é que esse dia pode ser hoje. E pode acontecer com algumas das pessoas que mais amamos.

Eu já comecei a perder algumas dessas pessoas. Martinho Lutero Galati, Naomi Munakata, Daniel Azulay… não eram pessoas próximas do meu dia a dia, mas faziam parte da minha vida pelas influências positivas que deixaram no meu ser ao longo de 41 anos de existência terrena. Essas perdas estão me machucando. E, entenda: o conceito de amor vai muito além do gostar apenas das pessoas que estão ao nosso lado. Também amamos aquelas pessoas que ajudaram em nosso crescimento emocional e intelectual, mesmo de longe.

Essas três pessoas mereciam ter uma morte natural e serena. Uma passagem tranquila. Quem sabe um apagar das luzes durante o sono, e pronto. Sem dor. Infelizmente, não tiveram essa chance: deixaram o plano terreno de forma dolorosa, lutando pelo sagrado direito de viver.

Talvez realmente fosse a hora dos três deixarem o nosso planeta. Quem sabe a missão estava cumprida. Mas… dessa forma? Sofrendo?

Sim. Todo mundo vai morrer um dia. E eu estou manifestando um enorme egoísmo em querer que as pessoas que eu amo permaneçam mais um pouco por aqui. Ou quem sabe estou demonstrando empatia por quem se foi de forma tão dolorosa, e pelos parentes que ficaram que, em alguns casos, nem mesmo tiveram a chance de se despedir.

Sem um último olhar. Sem um último abraço. Sem um beijo de despedida. Nada.

Muitos vão perder a vida por causa de um inimigo invisível, e nem mesmo terão o direito digno de se despedirem das pessoas que amam. Porque o vírus não deixa.

E esse cara diz aos berros “todo mundo vai morrer um dia”…

Olha… eu estou tão cansado de tudo isso, que não tenho mais forças para ofender esse cara. A melhor solução para ele nesse momento é fazer o que todos os demais poderes, seus ministros, o seu vice-presidente, a justiça, a Organização Mundial de Saúde, o FMI, o Trump e todo ser humano com inteligência deve fazer: deixar ele falando sozinho.

Prefiro seguir em frente, enfrentando as dificuldades da pandemia e do isolamento social. Seguir me preocupando com basicamente toda a minha família, pois praticamente todos estão no grupo de risco (ou pela idade, ou pela diabetes, ou porque fizeram cirurgias, ou porque contam com órgãos a menos).

Prefiro me preocupar com a minha saúde, pois a diabetes me coloca no grupo de risco. Pois eu sei que vou morrer um dia. Mas… não dessa forma.

Prefiro pensar que esse pesadelo vai passar daqui a alguns meses, e que vamos acordar melhores dele. Vamos sair de nossas casas para chorar aqueles que perderam suas vidas pela pandemia. E devemos chorar em nome e, principalmente, respeito por quem partiu e quem ficou.

A boa notícia é que vamos poder voltar a abraçar aqueles que estão ao nosso lado, sem medo de morrer por demonstrar empatia e amor ao próximo.

Sim. Todos nós vamos morrer um dia. Mas vamos lutar para salvar quantas vidas forem possíveis. Com dignidade e amor ao próximo.

Por amor… fique em casa.


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