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Racionais MC’s | Diário De Um Detento | Sobrevivendo No Inferno | 1998

Cada sentença um motivo, uma história de lágrima, sangue, vidas e glórias.
Abandono, miséria, ódio, sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo.

O massacre da penitenciária do Carandirú aconteceu em outubro de 1992, e só agora, em 2013, mais de 20 anos depois, e os envolvidos são julgados e condenados. Alguns deles não podem pagar pelos seus crimes, pois faleceram antes da questão ser devidamente julgada pelo judiciário brasileiro. E o fato de uma música (e videoclipe) como “Diário De Um Detento” ainda ser tão atual, mesmo falando de um assunto que já tem duas décadas, só mostra para mim como as coisas estão erradas no Brasil, em várias esferas.

Os Racionais MC’s contam com o mérito de se transformarem em um dos maiores fenômenos fonográficos do Brasil. Se o cenário do rap nacional estava em expansão, eles representam o ápice, uma vez que eles conseguiram a façanha de vender mais de meio milhão de cópias oficiais dos seus CDs, vindo de uma gravadora pequena, e sem contar com o apoio da grande mídia. O único canal que passava o seu videoclipe na íntegra em horário nobre (detalhe: o videoclipe tem aproximadamente 8 minutos de duração) era a MTV Brasil.

Isso, sem falar nas cópias piratas, que o próprio grupo admitia que existiam no mercado. Eles estimavam que, com as cópias não oficiais, eram pelo menos mais de 2 milhões de cópias de “Sobrevivendo No Inferno”. E eu não duvido disso.

Talvez essa música tenha me causado mais o impacto de engajamento do que de qualquer outra coisa. Obviamente, a letra pesada e as imagens fortes chamaram a atenção, e isso torna o videoclipe sensacional. Mas a consciência que o assunto que a música aborda é inegavelmente acionada. Ainda mais quando os réus do massacre do Carandirú ainda são julgados. E alguns deles ainda podem recorrer da pena, e continuarem livres.

Tem muita coisa errada no judiciário brasileiro. A prova disso está nos tais “recursos infringentes” que foram recentemente aceitos pelo STF aos réus do Mensalão. Aliás, vivemos em uma democracia que se sustenta através de uma máquina “democrática” viciada, onde os mais poderosos tem todos os recursos para não irem para a cadeia, e os mais pobres acabam ficando entregues ao próprio destino.

Não me entendam mal. Assassino, sequestrador e autor de crimes hediondos devem responder pelos mesmos na cadeia. O problema é o sistema prisional brasileiro, a nossa justiça, o sistema de reintegração do indivíduo à sociedade, a violência e corrupção que se faz presente na polícia e nos órgãos responsáveis pela segurança pública… ou seja, eu sei que bandido tem que ficar preso. Mas também sei que nenhuma rebelião pode ser contida com AR15 e bombas de efeito moral.

 

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