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Trump, e a vassalagem da Big Tech

Na semana passada, aconteceu um encontro entre os principais líderes tecnológicos (ou pelo menos a maioria deles, já que um nome importante não estava presente) e o presidente dos Estados Unidos que se tornou notícia pelo nível de constrangimento e vassalagem dos CEOs das big techs.

O evento escancarou o delicado equilíbrio de poder entre a política e o setor privado, revelando a disposição dos executivos em se alinhar publicamente ao presidente norte-americano para garantir seus interesses corporativos.

Bem diferente da promessa de garantir direitos fundamentais dos usuários, como privacidade, liberdade de expressão e combate ao racismo. Apenas para citar alguns.

A seguir, vou dissecar (com um misto de asco com vontade de vomitar) os pontos centrais desse episódio.

 

A presença dos grandes líderes

No jantar, só tinha nomes de peso.

Tim Cook (Apple), Satya Nadella (Microsoft), Sundar Pichai (Google), Mark Zuckerberg (Meta), Sam Altman (OpenAI), entre outros executivos representando AMD, Oracle e IBM.

A nata do mundo tech estava lá.

Os principais responsáveis por moldar a economia digital estavam em um mesmo espaço, reforçando a narrativa de interdependência entre a política norte-americana e a tecnologia, onde grandes executivos estavam lá para se curvarem diante da figura de Donald Trump.

Exceto um.

 

A ausência de Elon Musk

Eu nem precisava me aprofundar em detalhes sobre a ausência de Elon Musk no evento. Quem acompanhou os últimos nove meses da relação conturbada entre ele e Donald Trump sabe muito bem por que a Tesla não tinha nenhum representante no jantar.

Alguns chegaram a afirmar que Musk foi sim convidado, mas outras informações indicam que ele sequer estava na lista oficial.

Musk e Trump entraram em rota de colisão política desde que Donald assumiu o segundo mandato. Neste aspecto, o jantar também pode ser encarado com sinal de alinhamento, com uma ausência que deixa claro que esses dois sequer conversam nesse momento.

 

Os vergonhosos discursos de agradecimento

Durante o evento, cada executivo fez questão de agradecer pessoalmente a Trump, em falas que soaram como declarações de lealdade quando, na prática, cada um diz: “Donald, por favor, me use essa noite”.

Sam Altman exaltou as políticas pró-negócios norte-americanos do presidente, e ele pode ser o único da mesa a ter motivos para fazer isso.

Afinal de contas, o governo norte-americano está investindo pesado no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial, pois não quer perder essa corrida para os chineses.

Já Satya Nadella agradeceu por Trump unir o setor e promover a liderança americana. O que me deixa chocado, vindo de um homem que transborda sensatez.

Mas o pior de todos foi mesmo Tim Cook da Apple, que chegou a mencionar a palavra “obrigado” OITO VEZES em MENOS DE DOIS MINUTOS.

E isso, porque Cook estava desesperado com as taxas de impostos da China, a ponto de queimar uma grana para transferir a produção do iPhone para a Índia… e, ainda assim, ser taxado.

O comportamento de Cook gerou comentários irônicos e memes nas redes sociais, deixando claro o nível de submissão desses executivos de big techs.

 

A vassalagem tecnológica

O cenário era emblemático e revelador.

Donald Trump e a primeira-dama, sentados ao centro da mesa, reforçando a imagem de um líder feudal diante dos seus vassalos, aqui representados por um grande grupo de humilhados líderes tecnológicos.

As imagens transmitiram ao público a clara mensagem de subordinação, revelando como até mesmo as empresas mais poderosas do planeta reconhecem o peso da caneta presidencial.

Homens poderosos que, no fundo, morrem de medo de sanções, punições e cargas tributárias altíssimas. É quase como dizer que eles são “gente como a gente”, com a grande diferença que todos nós pagamos nossos impostos de forma quase religiosa.

Tudo isso deixa muito claro o quanto o setor privado norte-americano depende de políticas públicas, regulamentos e contratos governamentais para prosperar de verdade.

Diferente do que o seu tio Cláudio prega para o Brasil, falando bobagens como liberalismo econômico, livre mercado e independência das interferências estatais.

Se parar para pensar, as big techs estão muito mais próximas da filosofia que funciona no Brasil do que da utopia vendida como “mundo ideal” nos Estados Unidos.

Mas vocês não estão preparados para essa conversa.

 

Estratégia e cálculo político

Por trás da submissão explícita, há também um cálculo estratégico das gigantes de tecnologia, e não podemos ignorar este aspecto da narrativa.

As grandes empresas sabem que manter uma postura dócil em público pode abrir portas para negociações privadas mais favoráveis. E todo mundo que foi para esse jantar quis se humilhar em troca do dinheiro que pode receber no futuro.

Esse alinhamento não é apenas demonstração de fragilidade, mas também uma forma de garantir influência nos bastidores, e não apenas para fechar parcerias de fornecimento de dispositivos e tecnologias, mas para inclusive orientar em projetos de lei e decisões que podem ser favoráveis para as próprias big techs.

De novo: apenas um trouxa iludido acredita que Mark Zuckerberg e Tim Cook trabalham pensando nos usuários.

A comparação com a China, onde o governo exerce controle absoluto sobre as empresas de tecnologia, é inevitável e, em alguns casos, até cômica. O mundo da terra plana capota de forma inacreditável para esse povo, e boa parte do mundo civilizado não consegue enxerga os movimentos aplicados nesse teatro dos horrores.

Nos Estados Unidos, apesar da aura de independência, a vassalagem simbólica mostra que o poder político continua sendo o grande maestro.

Tal e como acontece em vários países do mundo.

Incluindo na China, que muitos consideram como uma ditadura.

Coincidência? Eu acho que não.