
1h30 da minha vida que não voltam.
Nem tentem me chamar de burro ou insensível. Eu entendi o que tentaram fazer em “Uma Advogada Brilhante”, filme de “comédia” (sic) protagonizado por Leandro Hassum. A narrativa tenta combinar humor com crítica social ao abordar as questões de gênero dentro do ambiente corporativo, o que não deixa de ser uma boa ideia.
Usar o humor para abrir uma discussão de pano de fundo sobre temas complexos como misoginia, desigualdade no mercado de trabalho e preconceito (especialmente no setor jurídico, tradicionalmente dominado por homens) é sim uma premissa inteligente. Dá para desenvolver uma boa trama com esses elementos.
Porém, a execução da diretora Ale McHaddo passa bem longe de ser considerada aceitável. O filme falha onde mais precisava acertar (na comédia), e pouco ajuda nessas discussões.
Do que se trata?

No centro da narrativa está Dr. Michelle, personagem interpretado por Leandro Hassum, um advogado que se vê em uma situação desesperadora quando o escritório onde trabalha é adquirido por uma grande firma com políticas de equidade de gênero.
Em uma reviravolta narrativa, a empresa decide demitir alguns dos funcionários homens para equilibrar o quadro de colaboradores, colocando o protagonista em risco de perder seu sustento.
O agravante da situação é que Michelle precisa manter sua renda para garantir o pagamento da pensão ao filho, evitando assim que sua ex-esposa se mude com a criança para os Estados Unidos, o que dificultaria seu contato com a criança.
Aproveitando-se da ambiguidade de seu nome, frequentemente confundido como feminino, o personagem toma uma decisão radical e controversa: assume a identidade da Dra. Michele, transformando-se em mulher para manter seu emprego.

O filme desenvolve esta premissa de inicialmente roubar o emprego de uma mulher através da mentira e da manipulação de narrativa para mostrar os desafios, constrangimentos e revelações que o protagonista enfrenta ao experimentar o mundo corporativo a partir de uma perspectiva feminina, confrontando de primeira mão o sexismo e a discriminação que antes não percebia ou ignorava em seu ambiente de trabalho.
A narrativa utiliza o recurso da inversão de papéis – um homem experimentando a realidade feminina – como ferramenta para expor e criticar comportamentos misóginos e preconceituosos que persistem no mundo corporativo.
Ao invés de simplesmente retratar estas situações de forma didática, o filme opta por uma abordagem que emprega o humor como veículo para mensagens mais profundas sobre igualdade e respeito.
Pronto. Contei a história do filme, que é a melhor parte. Se você quiser simplesmente ficar com a sinopse e não perder seu tempo indo ao cinema, continue a ler o artigo, e você não vai se arrepender.
Um filme que é “um copo de água (suja)”

É inacreditável. Você fica 90 minutos assistindo “Uma Advogada Brilhante” e não consegue rir de absolutamente nada do que vê.
Pelo contrário. Sai com ódio da sala do cinema.
Vou confessar que eu não ajudei a mim mesmo nessa missão. Antes de “Uma Advogada Brilhante”, eu assisti ao ótimo “Vitória (2024)”, com ninguém menos que Fernanda Montenegro. E… nada contra o Leandro Hassum, mas… criei na minha cabeça um verdadeiro abismo entre os dois filmes.
Não estou afirmando que todo filme brasileiro precisa entregar uma história minimamente linear e ter um elenco consagrado. Porém, até mesmo as bagaceiras que eu assisto de vez em quando precisa entregar aquilo que promete.
No caso de “Uma Advogada Brilhante”, eu repito: é um filme de comédia que você não ri de nada.
As piadas são estereotipadas, no melhor estilo de esquete do antigo Zorra Total. E até mesmo bons comediantes como o próprio Hassum e Marcelo Mansfield se tornaram insuportáveis em personagens que contam a mesma piada o tempo todo.
Isso deve acontecer por um único motivo: roteiros “engessam” comediantes de stand=up, que se valem do controle criativo e da capacidade de improvisação para fazer piadas sobre o cotidiano.
O elenco de “Uma Advogada Brilhante” reúne nomes conhecidos do cinema e da televisão brasileira, e parte da aposta do sucesso do filme está neste aspecto. O que é péssimo, pois o lado criativo da história que se lasque.

Além de Leandro Hassum no papel principal, o filme conta com as atuações de Olívia Lopes, Cláudia Campolina, Fernando Alves Pinto, Nany People, Danilo Gentili e Bruno Garcia em papéis de apoio que complementam a narrativa central. A diversidade do elenco reflete a proposta do filme de representar diferentes perspectivas sobre as questões de gênero abordadas.
E deixo claro que a grande maioria desse elenco simplesmente não tem culpa do desastre que é esse filme. incluindo o Danilo Gentili, por quem não morro de amores, mas foi lá fazer o serviço pelo qual foi pago.
O que me deu raiva mesmo foi o contexto do todo.
Ale McHaddo é uma mulher trans. Essa história é baseada em suas próprias experiências em ambientes profissionais dominados por homens, o que (em teoria) daria autenticidade à abordagem dos temas. O que, de novo, seria ótimo para o filme, pois teríamos sim um grande ponto de reflexão sobre essas questões sociais.
E até temos isso no final do filme, pois é o mínimo que se espera para uma história tão óbvia.
O problema é que a execução e “Uma Advogada Brilhante” é simplesmente pífia.
Você não tem o conflito da trama central desenvolvido de forma decente, já que a solução de Michelle se travestir de mulher para passar a perna nos seus chefes apareceu “do nada” com menos de 15 minutos de filme.
Tudo bem, a gente entendeu rapidamente que a motivação dele em passar por essa humilhação é não perder o filho que pode ir embora para o exterior. Mas isso não é desenvolvido com tempo ou dignidade suficientes para que se crie uma empatia pelo personagem central e suas motivações.
O roteiro do filme foi escrito pelo ChatGPT. Ou o responsável pela montagem dessa história queria quebrar as pernas da diretora, pois a falta de coerência para vários eventos chega a ser grosseira.
Sem falar na solução para a resolução do último conflito do filme, que é de uma conveniência que chega a doer o baço de tão ruim.

Sério… “Uma Advogada Brilhante” é tão ruim, que não dá a volta, de jeito nenhum. Ele gera revolta em quem tem bom senso. É um “Uma Babá Quase Perfeita” do mundo jurídico, mas escrito por mãos humanas que são menos habilidosas que a inteligência artificial.
Nem mesmo o ChatGPT seria capaz de escrever algo tão ruim.
Em alguns momentos específicos, “Uma Advogada Brilhante” flerta em fazer exatamente o contrário do que se propõe: reforçar estereótipos e preconceitos contra as mulheres, pois o comportamento do Dr. Michelle passa bem longe de ajudar na hora de entregar a verdadeira mensagem do filme.
Se parar para pensar na premissa inicial, esse filme não deveria existir. Afinal de contas, o simples ato do Dr. Michelle cometer o crime de falsidade ideológica já invalida a patética tentativa de levar uma mensagem edificante adiante.
Porém… suspensão de descrença…. campo de distorção da realidade…. comprimidos de LSD com Coca-Cola gelada… use o que quiser para enganar seu cérebro para validar esse filme.
Eu estou pasmo que esse filme recebe um 3.5/5 no Adoro Cinema, e um 6.3/10 no iMDB. Devem ser as mesmas pessoas que ignoraram os mais de 50 prêmios que a Mikey Madison ganhou antes do Oscar, pois adoram chamar ela de prostituta no lugar de reconhecer seus méritos.
Por fim, “Uma Advogada Brilhante” é desprezível. Isso não vale o deslocamento até o shopping, o ingresso nos cinemas e as compras feitas na Americanas (pois pagar R$ 40 na pipoca é só pra quem é trouxa mesmo).
Passa longe.
De nada.
