
Cara Manuela Dias,
Não fui o público-alvo do seu remake de Vale Tudo, e o motivo é bem simples: eu não pedi por essa segunda versão. Eu, e praticamente ninguém que viu a novela original. E se as novas gerações quisessem conhecer essa história, o Globoplay faria um serviço melhor que a senhora.
Mas não estou aqui para te ofender gratuitamente. Aquelas pessoas que assistiram a 173 capítulos contam com o direito legítimo de amaldiçoar a sua oitava geração por tudo o que foi entregue. Eu só assisti ao capítulo final e, por tudo o que foi apresentado entre tantas propagandas comerciais, mal sei direito o que pensar sobre o que vi.
Mas como todo brasileiro, quero conversar com a senhora sobre um pequeno detalhe que é relevante para a ficção: a coerência narrativa.
A vida não tem lógica. Já a ficção… precisa ter!

Minha querida Manu (posso te chamar assim?), a realidade é totalmente imprevisível, e a senhora sabe disso. Ninguém poderia prever que o final de Vale Tudo seria tão ruim, mesmo com todos os sinais dados ao longo de meses.
Por isso, como regra, a ficção, que é criada por mãos humanas e não por obra do aleatório, precisa ser lógica e coerente. A sequência de acontecimentos precisa ser minimamente sustentável para que seja crível para aqueles que estão acompanhando aquela narrativa.
Agora, quando uma bala surge na parede do completo nada (vindo de uma pistola semiautomática, e não de um fuzil AR-15 – mas vou ignorar isso), uma mulher fica HORAS sem vida em um apartamento, ressuscita no melhor estilo Jon Snow de Game of Thrones e faz uma cirurgia de emergência sem qualquer tipo de anestesia…
Olha… ou Jesus Cristo reencarnou, ou Odete Roitman é um integrante dos X-Men… ou algumas coisas importantes para que todos acreditem nisso deixaram de ser explicadas.
E mesmo sendo uma obra de ficção, não podemos ficar com aquela impressão de que este é o mundo mágico de Bambuluá. Não há suspensão de descrença que sobreviva a tudo isso.
Isso não se faz com um clássico
Vou cair no óbvio redundante a partir de agora, Manu. Porque eu quero acreditar que a senhora sabe muito bem sobre isso que vou dizer.
Vale Tudo (a versão original, e não essa porcaria que a senhora entregou) é uma das melhores novelas da história da televisão brasileira – se não for a melhor. E esse é um fortíssimo motivo para jamais querer o seu remake.
Mesmo assim… quem sou eu para não querer alguma coisa, ou até mesmo impedir que a falta de bom senso prevaleça?
Se você vai ousar adaptar uma história como essa, jamais (vou repetir: JAMAIS) descaracterize os elementos básicos dessa narrativa, principalmente no seu plot central: vale tudo em nome da ascensão social no Brasil?
Transformar essa narrativa em um enorme “fan service”, apenas porque você queria agradar a todos mantendo Odete Roitman viva (quem sabe para uma futura série de TV sobre as aventuras da personagem em Paris) e jogar fora todo o contexto central de questionamentos morais e éticos, a mensagem da real necessidade em combater a impunidade com honestidade e, por tabela, apagando o protagonismo de Raquel como consequência são alguns dos crimes que a senhora, Dona Manu, cometeu com a versão original de Vale Tudo.
Devo reconhecer que foi muita ousadia de sua parte abandonar a premissa original para contar uma história que fez todo mundo sem apaixonar por uma vilã debochada.
Pena que isso transformou a senhora, Manuela Dias, em uma verdadeira assassina do bom senso.
Tudo tem limites!
Dá para ouvir o coletivo gritando ao fundo: “o povo não é bobo; abaixo a Manuela Dias”, mesmo que isso não dê rima.
Se o mundo real for justo (mesmo que imprevisível), dona Manu nunca mais vai escrever uma novela novamente, pelo resto de sua vida. O RH da Rede Globo deveria chamar essa mulher para entregar as contas, sem qualquer tipo de benefício.
Ou será que não?
É de se pensar que a Rede Globo foi a grande vencedora desse desastre narrativo chamado Vale Tudo (2025). O faturamento comercial foi recorde, e faz muito tempo que uma novela do canal (ou qualquer telenovela lançada nos últimos anos) consegue tanto engajamento como o que testemunhamos nos capítulos finais da história da dona Manu.
E no final, o que importa, mesmo, é o hype. O engajamento.
Se bobear, a Rede Globo lança mesmo a continuação dessa história, com dona Manu supervisionando tudo o que Walcyr Carrasco vai escrever.
Na boa?
Eu realmente não me importo com o fato de Odete Roitman estar viva. Foi uma das poucas coisas boas neste final de Vale Tudo.
O grande problema é a explicação porca, a edição pior do que a minha no CapCut, os erros de continuidade e a já mencionada falta de coerência. Tudo isso é ainda pior em uma história ruim, feita sem o devido cuidado narrativo e com total ausência de coerência nos acontecimentos.
Não estou pedindo um Black Mirror ou Ruptura. Mas não pode ser tão estúpido a ponto de fazer todo mundo pensar se o Zorra Total não merecia uma indicação ao Emmy Awaards.
Por isso, dona Manu, me despeço desejando uma boa aposentadoria para a senhora. Se eu, que só vi o capítulo final, está aqui reclamando, posso imaginar o ódio de quem testemunhou 173 longos capítulos desse balde de incoerência que a senhora jogou na cara de todo o mundo.
De alguém que tem empatia por quem está sofrendo,
Eduardo Moreira (que não viu a novela – e está agradecendo a Deus por isso).
