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Vitória (2025): o último ato de Fernanda Montenegro no cinema brasileiro

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Se este é o último ato de Fernanda Montenegro nos cinemas, é um ato que está à altura de seu talento e genialidade. E não poderia ser menos que isso para a maior atriz que o nosso país já teve.

“Vitória”, que chegou aos cinemas em 13 de março de 2025, traz Fernanda Montenegro em mais uma atuação magistral… aos 95 anos de idade. Na verdade, quando o filme foi produzido, ela estava com 92. Mesmo assim: não conheço ator ou atriz que, nessa idade, entrega uma performance tão visceral e entregue ao personagem.

A obra cinematográfica retrata uma história real de coragem e persistência que se passou nas movimentadas ruas de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, onde uma cidadã comum tornou-se peça fundamental no desmantelamento de uma poderosa rede de crime organizado.

E eu só vou te dar ótimos motivos para sair de casa e assistir ao filme o quanto antes.

 

Do que se trata?

“Vitória” é baseado na fascinante história verídica de Joana da Paz, uma moradora de Copacabana que, munida apenas de uma câmera e fitas VHS, documentou sistematicamente as atividades ilícitas que ocorriam próximas à sua residência.

No longa, a personagem recebe o nome de Dona Nina (Fernanda Montenegro), e representa a determinação inabalável de uma cidadã que decidiu não se calar diante da criminalidade que se desenrolava diante de seus olhos.

Com meticulosidade e coragem, Dona Nina filmou durante meses as operações de uma quadrilha formada por traficantes e policiais corruptos, arriscando sua própria segurança em nome da justiça. O material coletado, posteriormente entregue a um jornalista, tornou-se evidência crucial para desmantelar um esquema criminoso que há anos operava impunemente naquela região.

A concepção do projeto remonta a 2005, quando a reportagem original sobre Joana da Paz, escrita por Fábio Gusmão, veio a público e imediatamente captou a atenção da indústria cinematográfica. Foram necessárias quase duas décadas para que o filme finalmente se materializasse, período durante o qual a produção enfrentou inúmeros obstáculos.

Além das questões de segurança relacionadas à proteção da identidade da verdadeira protagonista, que viveu sob proteção oficial até seu falecimento em 2023, o projeto teve que lidar com as complexidades inerentes ao tratamento de um tema tão delicado e politicamente sensível como a corrupção policial e o tráfico de drogas em uma das áreas mais emblemáticas do Rio de Janeiro.

De quebra, o filme teve uma dolorosa baixa na sua direção. Inicialmente concebido sob o comando de Breno Silveira, o projeto precisou ser reestruturado após o trágico falecimento do diretor em maio de 2022.

Andrucha Waddington assumiu então a direção, trabalhando com o roteiro elaborado por Paula Fiuza, que por sua vez se inspirou na obra literária “Dona Vitória Joana da Paz”, de autoria do próprio Fábio Gusmão, jornalista que primeiro trouxe a história ao conhecimento público.

 

Por que “Vitória” é um filme necessário

Porque, mais uma vez, é um filme que fala sobre um Brasil real, com problemas reais, e em um local que, por incrível que pareça, é um dos mais cultuados no mundo: Copacabana, que foi cantada em prosa e verso por diversos compositores.

A grande maioria dos brasileiros não sabe que Copacabana é um bairro que também foi afetado de forma sensível pelo tráfico de drogas e pela criminalidade que, em muitos casos, possui o envolvimento daqueles que deveriam proteger os cidadãos.

“Vitória” é um filme que vai se aprofundando na principal dor de Dona Nina nessa jornada pela justiça: testemunhar o desaparecimento de cada uma das poucas pessoas com quem ela realmente se importava dentro daquela comunidade.

Nossa protagonista entendeu, da pior forma possível, que ela iria ser a única sobrevivente daquele cenário de guerra. E após constatar que todos que ela amava partiram de alguma forma, ela seria a próxima vítima da barbárie.

Fernanda Montenegro torna tudo absolutamente crível em sua interpretação. Nos importamos com Dona Nina desde os primeiros minutos do filme, e entendemos suas motivações e medos revelados ao longo da história.

Além da presença icônica de Fernanda Montenegro como protagonista, “Vitória” reúne um elenco diversificado e talentoso que dá vida aos múltiplos personagens dessa intrincada trama.

Alan Rocha interpreta o jornalista Flávio Godoy, profissional que acolhe as denúncias de Dona Nina e torna-se seu aliado na perigosa missão de expor os criminosos. A narrativa ganha contornos ainda mais humanos com a participação de Thawan Lucas no papel de Marcinho, um jovem em situação de rua que desenvolve uma relação de confiança com a protagonista e torna-se seu ajudante nessa improvável cruzada contra o crime organizado.

O elenco conta ainda com as presenças marcantes de Linn da Quebrada, Laila Garin e Thelmo Fernandes, que contribuem para enriquecer o universo dramático da obra com interpretações que capturam as diferentes facetas da realidade carioca retratada no filme.

E é impressionante que Fernanda Montenegro consegue fazer com que esses talentos se tornem ainda maiores e mais vibrantes. A presença da dama do teatro, cinema e TV faz com que os talentos se mostrem de forma ainda mais brilhante e eloquente.

“Vitória” é um excelente filme. Sua reconstrução da atmosfera do Rio de Janeiro de 2005 é praticamente perfeita, com uma enorme riqueza de detalhes. Isso é resultado de um trabalho primoroso de direção de arte que transporta o espectador para o período em que os eventos reais ocorreram.

Os ambientes, figurinos e elementos visuais colaboram para criar uma imersão autêntica no cotidiano de Copacabana e nos contrastes sociais que caracterizam a região.

A direção de Andrucha Waddington é eficiente e sensível ao material, ainda que não seja revolucionária em termos estéticos ou narrativos. Até porque o filme não foi concebido para ser visualmente chamativo, ou com tramas recheadas de plot twists.

Aliás, para não dizer que sou um vendido e que vou passar pano para tudo, “Vitória” tem alguns escorregões de roteiro, com obviedades de eventos e inconsistência argumentativa em outros momentos. Até porque, convenhamos… o celular já existia em 2005. Logo, saber usá-lo no momento mais necessário é algo natural. Não podemos nos esquecer da existência da telefonia móvel apenas para adicionar um elemento narrativo que, na prática, é inverossímil.

Mesmo assim, o filme não abusa dos erros narrativos. Mesmo porque muitos já conhecem a história, e ele contou o principal da história.

O diretor optou por uma abordagem direta e realista, privilegiando a força intrínseca da história e as performances do elenco como elementos centrais da experiência cinematográfica.

Então… não espere “Vitória” chegar no Globoplay para assistir. É um dos melhores filmes de 2025, e ele merece o seu ingresso.

Aliás, Fernanda Montenegro merece o seu ingresso. Pois este pode ser o último que você vai pagar para ver essa gênia da atuação nos cinemas.

Como ato final, Fernanda Montenegro protagoniza uma história de uma mulher forte e corajosa. Do mesmo jeito que ela, Fernanda, foi ao longo de sua carreira como atriz. E esse filme está sim a altura do seu legado.

Se teremos Fernanda Montenegro no Oscar 2026? Boa pergunta.

Sinceramente? Não pensei muito nisso enquanto assistia ao filme. Entendo que ela quis contar essa história para nós, brasileiros. Porque acreditava na narrativa e no seu impacto. Alguém como Fernanda Montenegro não precisa provar absolutamente mais nada para ninguém.

Mas… fica a dica para os mais curiosos…

Como “Vitória” será distribuído pela Sony ao redor do mundo…

…Fernanda Montenegro só não recebe a indicação ao Oscar como Melhor Atriz em 2026 se ela, Fernanda, não quiser.

Simples assim.


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@oEduardoMoreira