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Sim. Eu estou muito preocupado com o coronavírus.

Mais do que deveria? Talvez. Estou tentando manter a calma, o que é difícil quando algumas pessoas seguem agindo como se nada estivesse acontecendo, afirmando aos quatro ventos que “não é tão grave assim”.

Não compactuo com esse pensamento.

Me preocupo comigo mesmo, porque eu faço parte do grupo de risco (tenho diabetes tipo 2) e estou na faixa etária da maioria dos infectados no Brasil (50% na casa dos 40 anos). Mas não tenho medo de morrer. Tenho medo de não ter uma vida normal depois disso, com problemas respiratórios e cardíacos.

Me preocupo com a minha irmã em São Paulo, com todos os sintomas. Ela não teve a chance de fazer o exame de COVID-19. O Hospital Albert Einstein disse NÃO para ela, mesmo tentando pagar.

Ou seja, não tente se iludir: tem MUITO MAIS CASOS POSITIVOS de coronavírus que os dados oficiais.

Meus pais, ambos com mais de 70 anos. Minha mãe, 78 anos, com diagnóstico de Mal de Alzheimer. Meu pai, também com diabetes e outros problemas de saúde. Não sei quando vou visitá-los, mas ao menos temos a videoconferência para amenizar essa dificuldade de respirar chamada SAUDADE. Como não me preocupar com eles?

Minha tia, uma sobrevivente de 93 anos que está em uma casa de repouso. Está isolada do mundo por causa de um vírus que já matou mais de 8 mil pessoas ao redor do mundo. Para ela, não é uma gripe comum.

Minha irmã, que cuida de todos eles. Ela não pode ficar doente. Não só por eles, mas pelos meus sobrinhos e meu cunhado. Isolamento social para ela significa salvar várias vidas diretamente ligadas à minha.

Meus amigos… tenho vários com mais de 70 anos que vão ter que abrir mão de suas rotinas diárias para se isolar de mim. Eu tenho medo de ser um agente de infecção dessas pessoas, e estou perdendo o sono pensando na segurança desses seres que tanto amo.

Meus colegas coralistas. A maioria das pessoas que cantam comigo tem idade acima de 60 anos, e todos merecem respeito e proteção. Eu adoro fazer música, e ficar cinco semanas preso em casa vai me deixar angustiado. Mas todos nós precisamos nos resguardar.

Todos nós precisamos olhar para outro com respeito, consideração e amor.

Eu sei. Não faz muito tempo que critiquei quem atendeu aos chamados do Rei do Gado. Mas quem me conhece sabe muito bem que meu desejo de empatia e amor se aplica a qualquer pessoa. Prefiro ser ofendido primeiro antes de ofender, e sei que não deveria ofender ninguém. Porém, a cada vez que alguém afirma publicamente que essa crise do coronavírus é “uma estratégia da China, não é tão grave assim, é como se fosse uma gravidez” e outras imbecilidades, sinto que estão dando socos na minha cara e no meu cérebro. E eu não tenho sangue de barata.

Mas… não importa.

O que realmente importa é que o idoso merece uma morte digna, e não por causa de uma pandemia sem precedentes. Que os recursos de saúde pública precisam estar disponíveis para quem mais precisa. E, principalmente, o que importa nesse momento é que precisamos cuidar dos outros para cuidar de nós mesmos. Demonstrar empatia e solidariedade para sobreviver ao período difícil que estamos passando.

Por isso… eu imploro…

Ouça o que os especialistas estão dizendo, e siga essas orientações. O problema não é só seu em caso de infecção: é meu também, porque eu não quero o pior para mim. E, por favor, fique em casa. Eu mesmo não estou saindo para nada, para me proteger e proteger a todos.

São tempos difíceis. Está tudo muito triste, e é difícil ver uma saída quando nossos olhos estão cheios de lágrimas. Mas… vamos superar isso. Juntos e separados.

Se você precisar conversar com alguém por telefone ou via videoconferência, seja para conversar sobre as coisas que vamos fazer depois que a crise passar, ou para chorarmos juntos porque sentimos falta dos abraços das pessoas que amamos, me procure. De verdade. Eu estou aqui, disposto a amenizar de alguma forma essa barra de vida que é ficar olhando para o mundo lá fora desacelerando lentamente.

Nesse momento de crise é bom lembrar que…

“Viver é bom nas curvas da estrada… Solidão? Que nada!”

Não estamos sozinhos nesse mundo. Não se esqueça disso.


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