Compartilhe

Doeu mais no coração dela descobrir por terceiros que o grande amor da sua vida iria arriscar a sua existência em uma guerra estúpida do que as feridas dos tiros e estilhaços de bombas que aquele homem fatalmente iria sofrer diante de um cenário tão trágico.

A reação dela não foi repentina ou impulsiva. Foi desespero ao saber que poderia perder alguém que ama. Qualquer pessoa normal faria exatamente a mesma coisa. É claro, aos olhos de muitos é uma agressão. Mas para os mais sensíveis é um ato de desespero.

Eu entendo esse desespero. Já pensou? Ter que guardar alguém na memória e no coração alguém que escolheu dormir até setembro acabar? É algo muito triste para qualquer pessoa. Especialmente se aquela pessoa decidiu não acordar mesmo depois do fim de setembro.

Quando a banda Green Day lançou “Wake Me Up When September Ends”, muitos de nós associamos a canção com o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. Algo compreensível, uma vez que aquela tragédia foi processada por semanas dentro da cultura do norte-americano médio, se transformando em um verdadeiro pesadelo para uma nação que, até então, acreditava que era livre.

De fato, a correlação existe. Mas não é a única.

O mês de setembro também é marcado pela campanha do Setembro Amarelo, para a prevenção do suicídio. E em um mundo onde a sociedade está cada vez mais doente, o olhar com maior cuidado para a depressão e doenças sociais e comportamentais que explodiram nos últimos anos (especialmente depois do crescimento das redes sociais) é fundamental para evitar que outras pessoas busquem uma solução tão trágica para as suas vidas.

A metáfora proposta pelo Green Day, onde a tentativa de suicídio tem o mesmo efeito psicológico de ir para uma guerra (e deixar as pessoas que nós amamos em desespero pela possibilidade de não mais voltar diante do cenário de caos) é perfeita. Todo suicida precisa lidar com uma guerra interna sem precedentes, sem ter ideia se vai sair vencedor ou perdedor na dura batalha contra as suas fraquezas e imperfeições. E a missão dos mais fortes é acordar os mais fracos. Quem está pensando no suicídio está dormindo na possibilidade de resolver os seus problemas com uma atitude drástica e definitiva.

Eu sei. Tem muita gente hoje fazendo piadinhas na internet com Billie Joe Armstrong, vocalista do Green Day e um dos compositores da música, uma vez que na letra da canção ele pede para ser acordado quando setembro acabar. Acho válidas as piadas. Acho bem sacada a piada.

Mas vamos falar um pouco mais sério.

Setembro acabou. E quantas pessoas você acordou ao longo desse mês? Quantas pessoas você pretende acordar?

Vamos acordar mais e mais pessoas do pesadelo que é conviver com a difícil decisão entre respirar fundo e superar os problemas que tiram o ar daqueles que não encontram saída (porque os olhos estão cheios de lágrimas para enxergar o caminho) ou simplesmente fechar os olhos e deixar o ar acabar de vez.

Essas pessoas estão dormindo. Mas procuram por ar para respirar melhor e voltar a viver. Nós, que estamos acordados e conscientes, temos a obrigação de tentar acordar essas pessoas. Não apenas porque setembro acabou, mas principalmente porque alguém que ama esse ser que ainda está dormindo vai sofrer demais se essa pessoa decidir dormir para sempre.

Acorde alguém. Porque setembro acabou.

 

 

“Wake Me Up When September Ends”
(Billie Joe Armstrong, Mike Dirnt, Tré Cool)
Green Day, 2005

 


Compartilhe