Compartilhe

Você sabe o meu nome. E isso basta!

Você realmente acha que vai tirar a minha vida, só porque estou sentado em uma cadeira, acorrentado, cheio de hematomas e costelas quebradas, cicatrizes e machucados?

Ora, você se esqueceu do meu nome? Ou melhor, não ousa citá-lo. Porque se fizer isso, sera derrotado.

É… você não sabe meu nome, definitivamente.

Quando assumi essa missão, eu já estive em situações bem piores que essa. Quase morri em um prédio em chamas, quase foi esmagado por uma pedra enorme que rolava em um túnel e, acredite, se quiser… eu já decolei de um avião preso em sua fuselagem… apenas segurando com as minhas mãos. Logo, não são essas correntes que vão me deter.

Muito menos você, apontando essa arma na minha cabeça.

Aliás, nesse momento, você é uma das coisas MENOS ameaçadoras que eu já enfrentei na vida. E nem preciso explicar que a bomba que você não sabe desarmar, pronta para explodir em três minutos e meio, e bem mais perigosa do que você.

Eu sei porque você está olhando para mim desse jeito. Sei porque está com esse ar pseudo ameaçador, mas que na verdade está refletindo o medo que está sentindo. Eu sei… a escolha é bem difícil. Me derrotar, mas morrer para isso, ou ser derrotado e sobreviver.

Enquanto você fica aí pensando na vida ou na morte, eu já planejei como vou fazer para sair dessa situação. A diferença entre eu e você é que eu não desisto. Não me entrego de forma alguma. Eu sei que, se você não me soltar, eu vou escapar.

E, se eu ainda não deixei claro para você, vou fazer isso agora: você vai perder! Não existe a menor possibilidade de você me vencer.

Um minuto já se passou. Você tem dois minutos e meio para se salvar, mas ainda perde o seu tempo me ameaçando com essa arma mequetrefe? Por que faz isso? Por que perde o seu tempo?

Escuta… por que você não se salva?

Por que está vivendo uma vida em função de me derrotar? Onde isso vai te levar?

Olha para você! Está com uma arma apontada para a minha cabeça e ainda está com medo sobre o que eu vou fazer com você quando eu sair daqui. Está em uma posição de simplesmente me deixar preso aqui, escapar e salvar a sua vida. Não seria o mais inteligente, ainda mais quando a bomba está prestes a explodir?

Eu pensaria seriamente se vale a pena seguir me ameaçando. Pois quando o relógio regressivo alcançar um minuto e meio, eu vou começar a agir. E após 60 segundos, você estará no chão, muito provavelmente inconsciente.

Por que inconsciente? Porque vou apenas concretizar um estado de espírito que você já se encontra, mesmo conseguindo abrir os olhos, respirar e sentir o sangue correndo em suas veias.

Pois é… eu, diferente de você, sinto meu sangue queimar. Sinto fogo correndo nas veias. Sinto o desejo de derrotar você, desarmar essa bomba e seguir com a missão. Nada me motiva mais do que esse cenário adverso.

Dois minutos.

Você está com medo.

Está me olhando com medo. Gostaria de estar longe daqui. Sim, eu sei… a essa altura eu já sei que você não faz a menor ideia sobre como desarmar a bomba. Não tem problema: se você sair correndo agora, eu poupo sua vida, desarmo a bomba, e fica tudo bem.

De novo: você não está desistindo de me derrotar. Está optando por se salvar. Pois se você seguir me ameaçando, vai perder. Não só perder para mim, mas perder a sua própria vida.

Veja bem… há 40 segundos eu abri o cadeado que prendia as correntes. Estou com os braços para trás e sentado na cadeira por puro jogo de cena. Apenas para descansar, ou para ilustrar melhor a cena para o leitor. Se eu quisesse, eu já teria desarmado você, uma vez que você, de forma displicente e tola, esta segurando essa arma com a mão esquerda… e nem canhoto você é!

Vamos lá. Você joga a arma no chão, eu vou me levantar e vou desarmar a bomba. Tente não atrapalhar o meu trabalho, e ninguém se machuca. Principalmente você.

Isso… isso mesmo… pode jogar a arma de um lado e correr do outro. Nada que você fizesse iria me deter hoje. Ainda mais hoje. Acredite, quando eu desarmar a bomba, será por mim,e por você.

Pois bem, vou parar de discutir filosofia de vida com você e fazer o que realmente interessa: salvar vidas.

A bomba…

Sempre colocam fios vermelhos e azuis. Sempre duas escolhas. Sempre opções binárias, e não múltiplas opções. Nesse caso, eu não gostaria que a tecnologia imitasse a vida. Não gostaria de ter múltiplas alternativas para desarmar a bomba. Duas bastam e, ainda assim, essa dualidade pode confundir a maioria.

Cortar o fio vermelho pode representar a minha salvação. Cortar o fio azul pode ser a minha liberdade. Mas nesse momento, eu quero ficar preso à vida terrena. Ao mundo onde eu vivo. Ao mesmo mundo que tenta me vencer.

Quero ficar com os dois pés no chão, e não sair pelos ares apenas porque cortei o fio errado. Afinal de contas, eu já fiz isso tantas vezes no treinamento, que eu não tinha por que errar nisso.

Porém… minhas mãos estavam suadas. Eu tremia. Caramba, eu estava nervoso! Mas não havia motivos!

Eu disse para aquele cara que está la fora em posição fetal, chorando, gemendo e com medo que eu ia salvar à mim e à ele. Então… por que eu estava nervoso? Só porque a vida dele depende do meu sucesso?

Pois é… e faltar 20 segundos para a bomba explodir não me ajuda em nada.

Tudo bem, vamos lá fazer isso…. fecho os olhos, e começo a respirar fundo para me acalmar, pelo menos para a minha mão parar de tremer e, assim, conseguir desarmar a bomba.

Abro os olhos. E escolho o fio vermelho.

Posiciono o alicate. Fecho os olhos de novo, apenas para ter certeza do que vou fazer.

Dou o clique. Corto o fio.

E a bomba é desarmada.

Tiro um peso de 50 toneladas das minhas costas. Sento no chão, pois minhas pernas fraquejam. Chamo pelo rádio a equipe tática e peço que todo o time entre no local, pois agora aquele galpão é seguro.

Minha equipe prendeu o cara que me ameaçava minutos antes. Também, o coitado ficou parado, estático, sem se mover, de tanto medo que sentiu.

Vou até ele. Paro na sua frente. Ele ainda tem medo no olhar.

E simplesmente digo:

“Se você está vivo nesse momento, é por minha causa. Pois bem… agora você sabe qual é o meu nome!”



“You Know My Name”
(Chris Cornell, David Arnold)
Chris Cornell, 2006


Compartilhe