Acabou. Este pesadelo chamado “Eleições 2018” finalmente acabou. Eu não aguentava mais, sinceramente.

E o que restou?

Nos dividimos ainda mais.

Foi pior do que em 2014, quando veio um “nós contra eles” que era ultrajante. Hoje, temos um discurso de ódio explícito às diferenças e às minorias. Hoje, independente de quem venceu, quem perdeu foi o povo, que se dividiu em questões que vão além da política. O povo se dividiu moralmente.

Não é uma luta contra a corrupção. Não é pelo progresso na nação. É apenas pela defesa do “eu”, do individualismo explícito. O brasileiro médio não se importa e nunca se importou com o outro. O brasileiro médio é misógino, homofóbico, racista, preconceituoso, mal educado, burro por excelência e, principalmente, corrupto.

O brasileiro médio se corrompe em nome dos seus interesses mais diretos. Se preocupa com o próprio umbigo, e não quer saber se as consequências dos seus atos vão afetar ao próximo. O brasileiro individualizou o seu discurso, sem se importar com o que é melhor para o coletivo.

Nós perdemos. Todos nós perdemos. Independente de quem venceu.

Eu costumo dizer que a música ensina muita coisa. Ao longo da história, a música brasileira deixou tantas lições em tempos incertos, que é quase inacreditável ver como a grande massa se esqueceu de todas elas.

Ao longo do dia, eu li trechos de músicas que me fez lembrar do que está em jogo. Exemplos:

“Por isso cuidado meu bem, há perigo na esquina…”

“Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente”

Mas uma é perfeita para o dia de hoje. É profética. Legião Urbana previu que tudo o que vivemos hoje poderia acontecer no futuro.

Leia.

“Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos covardes
Estupradores e ladrões

Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação

Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos

Comemorar a água podre e todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo, nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão

Vamos festejar a inveja
A intolerância, a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror de tudo isto
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou essa canção”