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O difícil processo de envelhecer… e saber como envelhecer.

Dizem que eu nasci com a alma envelhecida. Eu concordo com isso. Sinto às vezes a nostalgia me pegando, o saudosismo de coisas que vivi ou não vivi, e de vez em quando me pego pensando no “ah, antigamente que era bom…”. Essa frase eu sempre combati nos mais velhos. Sempre repudiei nos meus pais. Agora, a vida me prega uma peça e me impõe essa frase, como uma secreta filosofia de vida, um sentimento velado que será curtido por mim por muito tempo.

Pelo resto da vida. Muito provavelmente.

Aliás, que coisa estranha é essa de sentir nostalgia de algo que não vivi. Eu não testemunhei muitas das coisas das décadas de 60 e 70, e fico com aquele sentimento de querer ter participado de tudo aquilo novamente, como se eu já tivesse naquele tempo.

Não sei se dá para chamar isso de saudosismo ou nostalgia. Talvez seja até aquela vontade de viver em um tempo mais alinhado com seus gostos e valores, mas não exatamente a vontade que tudo voltasse a ser como era antes.

De qualquer forma, estou envelhecendo.

Estou crescendo… amadurecendo…

Envelhecer bem é uma arte. Uma arte difícil de ser dominada. Lutamos contra a balança, contra a lei da gravidade, contra a diabetes, contra o sedentarismo, a impotência… são vários os obstáculos para nos mantermos saudáveis e independentes quando chegarmos na dita “melhor idade”.

Sei que ainda estou longe dos 70, mas já tenho alguns dos problema de saúde que deveriam me atacar daqui a 30 anos. Isso mostra duas coisas: que não tenho uma vida tão saudável assim, e que não existe essa coisa da idade para as coisas acontecerem ou não. Tudo nessa vida pode acontecer, a qualquer momento, em qualquer tempo.

Basta estar vivo.

Logo, a cada dia que olho no espelho, eu não procuro minhas rugas, cabelos brancos ou barba esbranquiçada. Eu procuro olhar para o cara do outro lado, que está se tornando um jovem senhor, e procuro conversar com ele. Uma conversa sincera, direta e aberta. Um diálogo sem rodeios, com a certeza que ele será a pessoa que vai entender exatamente o que eu quero dizer.



“Ei… você ai, do outro lado do espelho… preste atenção… 


Isso tudo o que eu estou sentindo… essas coisas estranhas, que você não consegue identificar o que é… um dia eu quero que você volte, e me conte tudo o que você aprendeu com esses sentimentos…


Nesse momento, eu só sinto a minha diabetes atacando, os meus rins falhando, minha barriga crescendo, o meu pau caindo, e cada vez mais eu valorizar os finais de semana, depois do cansaço que foi uma semana de trabalho. 


Mas no futuro, eu quero que você volte e me diga… o que é essa nostalgia… essa saudade de algo que não vivi… esse desejo de refazer passos que outros fizeram. 


Nesse momento, eu vou seguir meu caminho. Vou seguir me adaptando com o que está por vir. 


É claro que vou tentar compreender as gerações mais novas e suas tolices… porque ontem eu fui tolo, e hoje me chamam de sábio. E vou me preparar para esses tolos que me cercam dominar o mundo com a sua forma diferente de ver a vida. 


Vou procurar aprender com os tolos. E ser cada vez mais sábio. 


Vou sempre abrir espaço para o novo, para envelhecer sem me tornar velho. 


Vou trocar minhas roupas de tempos em tempos, comprar novos calçados para longas caminhadas, adquirir um chapéu de palha para os dias de sol forte, ou um guarda-chuva resistente para as tempestades. Vou até comprar cuecas novas para o dia que o meu “amiguinho” estiver mais animado, para aquela dona boazuda achar que eu sou o máximo. 


Vou também comprar uma bengala bonita, envernizada e ostentosa… para me apoiar nela quando minhas pernas não mais obedecerem ao meu teimoso cérebro, que vai se recusar a envelhecer. 


Vou me abrir para o novo, sempre. De mente, alma e coração. Assim como eu olho para você através do espelho, buscando nos seus olhos a força da juventude, vou olhar para o mundo com a mesma alegria no coração que senti quando abri os olhos pela primeira vez na vida, em fevereiro de 1979. Quando o mundo se apresentou para mim, eu comecei a registrar tudo, gravando na minha memória as coisas boas e ruins, e formando disso tudo o filme da minha vida. 


Ao envelhecer, não vou fechar meus olhos antes do tempo. Me manterei atento às novas tecnologias, possibilidades e habilidades. Respeitarei o progresso da humanidade e, se possível, vou contribuir só um pouquinho para as coisas ficarem melhores. Ou menos difíceis. 


E o mais importante: prometo, por mim e por você, não deixar de lutar contra a minha natureza interna. Seguir me desafiando. Seguir incomodando a alma envelhecida que vive em mim, e fazendo a juventude que ainda resta em meu corpo agir de fora para dentro, tornando o meu ser o mais dinâmico, versátil e surpreendente que eu puder. 


Até o dia que eu fechar os olhos pela última vez. 


Não vou me adaptar às adaptações que o tempo impõe com o avançar da idade. Vou me adaptar ao que me faz feliz. Vou me adaptar ao novo, porque o novo sempre vence. 


Vou me adaptar à ideia de envelhecer, sem ser um velho. 


Estamos conversados? 


Legal! Sabia que você ia me ouvir. Você sempre me ouve! 


Até amanhã. No mesmo local, no mesmo horário. 


Se cuida!”. 

“Não Vou Me Adaptar”
(Arnaldo Antunes)
Titãs, 1985


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