Eu cheguei à triste conclusão que o brasileiro afegão médio é um analfabeto cultural. Na verdade, eu deveria ter concluído isso bem antes de 2018. Porém, foi nesse ano que escancaramos nossa ignorância, especialmente no mundo da música.

Roger Waters foi vaiado no Brasil, porque ele fez algo inesperado para um grupo de pessoas que pagou R$ 800 para ver o show dele.

O que ele fez? Desafinou? Claro que não!

Roger Waters fez algo que foi pauta para ele ao longo de uma vida inteira, e que é parte muito importante na sua passagem como vocalista do Pink Floyd: se posicionou.

E beira a inocência (para não chamar de ignorância) constatar que um grupo de pessoas realmente acreditou que alguém como Roger Waters não ia se posicionar. É direito dele. Vivemos em um país livre. Com liberdade de expressão. E quem pensa que ele ou qualquer artista não tem o direito de se manifestar de forma contrária a um grupo de pessoas está errado. Simples assim.

Agora, temos a polêmica das vaias a determinadas cenas do filme Bohemian Rhapsody, que é uma biografia da banda Queen na ótica do seu vocalista, Freddie Mercury.

E, quando falo em certas cenas, quero dizer aquelas que envolvem a intimidade e condição sexual de Freddie Mercury. Como se as pessoas não soubessem que tudo aquilo aconteceu.

Eu só posso entender que a grande massa de brasileiros só sabe cantar as músicas (e nem sabem cantar, porque o inglês é péssimo), mas sem compreender a profundidade de todas aquelas letras. E não se preocupam em se informar sobre a vida e obra dos artistas que ouvem.

Também, pudera. Para uma geração totalmente manipulável pelas fake news nas redes sociais, não é surpresa alguma.

Me causa espanto ver uma massa de adultos se comportando como crianças birrentas, e não apenas no comportamento que reflete o pensamento do “o mundo tem que ser do meu jeito”. O simples ato de não desenvolver o menor interesse crítico em conhecer o mínimo sobre os artistas que vai prestigiar em uma manifestação artística mostra como o brasileiro médio está culturalmente atrasado.

Ou melhor… que a grande massa só aceita e respeita quem pensa igual. E todos que pensam ou são diferentes são repudiados ou marginalizados.

Eu imploro. Como um grupo de pessoas que empresta a voz para fazer música, abrir a mente e o coração para o conhecimento aprofundado sobre tudo o que nos desperta a empatia dentro do universo musical é fundamental para não limitar a nossa visão individual sobre artistas e bandas que tanto contribuíram para o mundo.

E não podemos marginalizar músicos que deixaram no mundo uma obra muito maior do que nós apenas porque suas visões de mundo são diferentes da nossa.

A obra é sempre maior que a pessoa. E nada vai mudar isso.