Perda total.

Como brasileiro consciente da fundamental importância de conhecer e se identificar com o passado para compreender o presente e, se possível, projetar um futuro melhor, eu me sinto hoje um derrotado. Mas a minha perda é muito menor do que a dos profissionais que dedicaram uma vida a contar a nossa história.

Mais de 200 anos de história do Brasil e parte da história da humanidade viraram cinzas. Mais de 20 milhões de itens que falavam muito de nós desapareceram.

Perda total.

Essas duas palavras são verdadeiros palavrões para uma nação inteira. É inacreditável! É irônico! Não faz dias que eu visitei o Museu do Amanhã, muito bem instalado no Boulevard Olímpico, e cheio de incentivos fiscais vindos de patrocinadores e empresas investidoras.

É irônico. Gastaram muito para responder a pergunta “como será o amanhã?”, e não investiram para proteger o nosso passado, onde essa e outras perguntas poderiam ser respondidas.

É triste. Muito triste.

O fogo consumiu a alma de todos aqueles que olham para o passado com respeito e admiração. Está consumindo de forma severa a minha essência, pois pela minha natural escolha profissional, eu escolhi ser uma testemunha ocular da história. Logo, ver a história virando cinzas matou um pouco da minha própria história.

Na verdade, minha dor é insignificante. Nesse momento, penso nos meus professores de história, que foram brilhantes pela coragem que tiveram em contar a verdadeira história do Brasil, e não aquela impressa em livros.

Nossa história. A minha. A sua.

Perda total.

Dá para sentir dores físicas com aquele fogo consumindo tudo. E a pior parte de tudo isso é que… a culpa, de novo, é nossa.

Somos um povo sem passado de propósito. Não temos cultura e educação para olhar para trás e valorizar o que foi positivo, compreender o que foi negativo, e tentar construir um presente mais promissor.

A culpa é nossa por não realizar uma forte pressão contra os nossos políticos, cobrando pela preservação da nossa história. Aliás, como povo, somos tão incompetentes, que perdemos parte da história da humanidade nessa tragédia, pois itens mantidos desde os tempos do Brasil Império foram destruídos.

200 anos de história. E por 20 anos pediam por reformas no Museu Nacional. Não foram ouvidos. Não consideraram nosso passado como algo importante.

A tragédia do Museu Nacional é uma tragédia coletiva. É um AVC que a cultura e a história do Brasil sofreu, de forma patética e catastrófica. A partir de agora, todo o povo brasileiro sofre de um Alzheimer sem precedentes. Não temos mais esse registro.

Tudo perdido. Para sempre. Perda total.

Está difícil dizer “bom dia” hoje quando parte do que eu acredito como brasileiro virou cinzas pela ação do implacável fogo alimentado pela incompetência coletiva.

Acidentes acontecem? É claro que sim.

Mas quando muita gente avisa que o acidente vai acontecer, ele automaticamente deixa de ser acidente.

Reconstruir o Museu Nacional é moleza.

Reconstruam o acervo histórico, e aí a gente pode começar a conversar.