Compartilhe

Eu optei por navegar sozinho por esse mar, mesmo correndo o risco de não mais voltar.

Eu abraçava forte a minha mãe e chorava, copiosamente. Eu estava desesperado. Curiosamente, nada de grave estava acontecendo. Ninguém morreu, ninguém estava doente. Tudo estava bem. Mas eu sentia uma angústia no meu peito. Algo que me sufocava.

Eu chorava de soluçar.

Minha mãe tentava me consolar. Colocava as mãos sobre a minha cabeça, me pedindo calma. Pedia que eu respirasse. Tentava me explicar o que estava acontecendo na sua forma simples, sem ser uma profunda conhecedora da causa:

“Calma, meu filho… é apenas uma canção.. e o que você sente tem um nome: é emoção.”

Pela primeira vez na minha vida eu estava chorando por causa de uma música. Eu tinha três para quatro anos de idade, mas eu me lembro muito bem. Esse tipo de informação fica no DNA musical da pessoa, que carrega essa lembrança afetiva pelo resto da vida. No meu caso em particular, carreguei “Porto Solidão” como uma das metáforas mais tristes do que é efetivamente estar sozinho na vida, enfrentando todos os desafios, sem ter a certeza que vai sobreviver a tudo isso.

Minha mãe me questionou o que eu sentia. Compartilhei com ela a minha angústia ao ouvir Jessé interpretar de forma tão sentimental aquela canção. Não fiz toda essa dissertação com o rigor e conhecimento técnico que tenho hoje, mas de forma simples eu consegui definir o que ele estava tentando transmitir naquela música:

“Ele está sofrendo.”

Não resta dúvidas que “Porto Solidão” é uma canção simplesmente espetacular justamente por esse motivo. Jessé não se limitou a cantar o texto.Transmitiu em sua voz o sofrimento mais profundo do protagonista da narrativa. É tão precisa essa interpretação, que ele não só brilha na afinação, mas reflete esse pesar da alma na dinâmica e até na tessitura vocal.

Ali, sem querer, eu começava a me dar conta sobre o impacto que a música exercia no meu ser. É uma conexão emocional tão forte, que o meu corpo sente. Não apenas o meu emocional acaba se alterando em função da música, mas o meu físico traduz esses sentimentos.

Eu chorava sem parar, e achava aquilo lindo, maravilhoso, espetacular.

Minha mãe entendia o que eu estava querendo dizer. Entendia o que eu sentia. Mais uma vez me abraçou, acariciou a minha cabeça, e disse que ao longo da vida essa emoção iria se repetir, e que a cada vez que isso acontecesse, que eu assimilasse o melhor dessa experiência.

Eu fechei os olhos. Confesso que não queria pensar muito no que ela me disse. Queria simplesmente sentir, vivenciar aquele momento. Eu sabia que ia ouvir aquela canção várias e várias vezes na vida. Sabia que iria cantar essa música em algum momento.

Talvez eu já soubesse que, no futuro, eu iria me sentir arremessado contra o cais.

Os anos se passaram. Muitas tempestades vieram.

Eu aprendi a navegar. Aprendi a dominar o veleiro da minha vida com responsabilidade, criatividade, alegria e maestria. Hoje, conheço cada parafuso ou pedaço de madeira do barco da minha vida. Sei onde estão os maires mais revoltos, e onde posso encontrar a calmaria das águas próximas das ilhas paradisíacas.

Aprendi com tudo isso que uma das melhores opções para não morrer no mar era navegar sozinho. Entendo que algumas pessoas tendem a remar na direção contrária, não sabem abrir as velas dos pensamentos, e claramente nos desviam do caminho que devemos seguir. Não são pessoas boas ou ruins, mas sim pessoas que não entendem que precisamos chegar a algum lugar, que nem mesmo a gente sabe onde é, mas que a nossa vontade de chegar é maior do que qualquer outra força externa.

Ainda não me tornei um velejador dos sete mares. Quem sabe dois ou três. Mas ainda tenho tempo para sempre navegar.

Mas vi e vivi as tormentas na vida adulta, como todo mundo já passou. Sei que meu coração vai passar por tanta coisa, que em alguns momentos eu terei dúvidas se vou aguentar. Ao mesmo tempo, terei a certeza que é apenas uma tempestade. Mais uma tempestade que só aqueles que abraçaram como causa maior a felicidade, custe o que custar. A paz de espírito. A alegria de dizer sim para si, sempre.

O que me salvou? “Porto Solidão”. Em algumas oportunidades.

Para começar, essa música me ensinou que você precisa aprender a remar desde cedo. Que precisa conhecer o mar. E que precisa seguir remando, independente das condições do tempo. Nem sempre é possível abrir as velas e deixar que a brisa dos bons momentos te conduzam pelo caminho. Em dias de tempestade, as velas ficam fechadas, e é preciso usar os remos para seguir avançando.

Eu aprendi a remar. Por isso, meus braços se tornaram mais fortes, o meu pulmão recebe mais ar, que oxigena melhor o cérebro, me tornando mais capaz. Mas o mais importante: meu coração está bombeando melhor, com mais força, me mantendo cada vez mais vivo.

Além disso, essa canção é uma das conexões mais fortes que tenho com a minha infância, e que tenho com a minha mãe. Por diversas vezes que eu me senti sozinho no mundo, eu simplesmente coloquei essa música para tocar e fechei os olhos. Tudo para sentir os braços de minha mãe me abraçando, suas mãos acariciando minha cabeça, e seu calor me aquecendo, mesmo à distância.

É um elo emocional para os dois. Ela também adora essa música. Se emociona com ela, mas teve a maturidade de me mostrar como melhor interpretar e identificar o que eu estava sentindo.

Isso foi tão valioso na minha vida, que hoje traduzo em palavras mal escritas tudo o que sinto pelas músicas que hoje fazem parte da Trilha Sonora da Minha Vida. Não é a simples necessidade de me expressar, mas sim em conversar comigo mesmo, todos os dias, buscando a melhor compreensão possível sobre essas canções que tanto marcaram a minha jornada, e que me acompanham nos próximos passos.

Curiosamente, hoje sou eu que busca incessantemente que o veleiro da minha vida navegue por mares mais tranquilos, mas que de tempos em tempos lida sozinho com as tempestades apresentadas. E jamais posso reclamar ou me lamentar sobre o fato de que minha vida se tornou uma alternância constante das condições do tempo. Foi a vida que eu escolhi viver, e acredito que a maioria das pessoas passa pelo mesmo que eu, todos os dias.

A minha alegria é saber que fiz uma escolha. Que escolhi ser o navegador do meu barco, sempre olhando para frente, com coragem. Se um dia o medo chegar, eu vou em frente mesmo com medo. Porque sei que vou chegar do outro lado, de alguma foma.

O mar pode até me arremessar contra o cais, mas não vou abandonar o barco da minha vida.

Eu sei que “Porto Solidão” é uma música que mexe profundamente com muita gente. Com um mar de gente. Se eu sou uma gota nesse oceano de sentimentos e emoções, que seja.

Mas espero, de coração, que esse texto possa ser os remos de alguém que, em algum momento, vai enfrentar as tempestades.

Desejo, com a maior sinceridade, que você não pare de remar. Que acredite de verdade que passar pela tempestade sozinho te deixará mais forte, mais confiante. Vai te tirar o medo. Tanto o medo do mar como o medo de ficar sozinho.

Tenha fé em si mesmo, e deixe seu coração navegar pelo mar de emoções que eventualmente você vai enfrentar. Se emocione. Sinta. Permita-se a sentir o que tiver que sentir, e aprenda que cada uma dessas emoções são os seus sinais de identidade emocional mais fortes. É por causa dessas emoções que você será admirado pelas pessoas que te amam de verdade. São essas emoções que te tornarão humano de forma efetiva.

Acredite. Depois da tempestade, tem um cenário lindo.

E navegar sozinho vai mudar a sua vida. Para sempre.

Será uma honra emprestar os meus remos para você. Serão meus braços te ajudando a remar.

“Porto Solidão”
(Zeca Bahia, Ginko)
Jessé, 1980


Compartilhe