Eu já ia escrever sobre a nobre deputada Ana Caroline Campagnolo (PSL-SC). Já me chamou a atenção as suas falas contra os movimentos feministas e sua filosofia de vida um tanto quanto “alternativa”. Mas como a vida, tal e como faria o Ricardinho nos seus melhores tempos na Seleção Brasileira de Vôlei, levantou uma bola maravilhosa para cravar bem no meio do peito da nobre deputada…

Vamos lá.

Eu vou tentar não ofender ninguém e apenas apresentar os fatos. Se a nobre deputada Ana Caroline Campagnolo em algum momento se sentir ofendida com alguma das afirmações feitas por mim nesse post, eu digo: “eu lamento por você, minha jovem”. A Constituição Federal defende o meu direito de livre expressão sobre qualquer coisa, e se a nobre deputada não sabe lidar com opiniões contrárias, recomendo que abandone a vida pública agora.

Para mim, Ana Caroline Campagnolo era uma ilustre desconhecida que ganhou notoriedade nacional com a infeliz iniciativa de solicitar aos alunos das escolas para que eles gravassem e denunciassem os professores que eventualmente realizassem “manifestações político-partidárias ou ideológica”. A atitude foi considerada tão esdrúxula, que o Ministério Público de Santa Catarina está processando a nobre deputada.

Começou errado.

Depois, Ana Caroline Campagnolo seguiu com os seus discursos contra os movimentos feministas. Recentemente em um evento da Assembléia Legislativa de Santa Catarina, ela foi vaiada pelo coletivo por diminuir as lutas dos movimentos organizados, tentando (sem sucesso) tirar as conquistas das principais representantes desses movimentos ao longo da história.

O que realmente me chamava a atenção na nobre deputada é que o seu discurso era conservador demais para uma mulher com apenas 28 anos de idade. Se bem que idade não quer dizer absolutamente nada, mas… era uma opinião extrema, praticamente colocando a mulher na posição de subjugada, abaixo dos homens em todos os aspectos. Isso realmente me incomoda. Há muito tempo que eu olho para os direitos das PESSOAS, e não para os gêneros estabelecidos. É claro que homens e mulheres são biologicamente diferentes, mas isso não quer dizer que a mulher tem que estar abaixo do homem nos aspectos sociais, profissionais, sexuais e familiares.

Sim. Essa teoria vindo de um homem já soa bem estranho. Mas mais bizarro ainda é ver uma mulher indo contra essa teoria.

Então, eu comecei a prestar um pouco mais de atenção na nobre deputada Ana Caroline Campagnolo. Observar os seus passos e, principalmente, compreender a fundamentação do seu discurso anti-feminista. Confesso que ainda estou com muita curiosidade para ler o seu livro, “Feminismo: Perversão e Subversão”, mas eu me recuso a pagar R$ 75,00 por algo que eu sei que vai me irritar profundamente.

E que tem um enorme potencial de terminar exatamente da mesma forma que o livro “O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota”, escrito pelo guru dos palavrões e gênio da quarta série primária Olavo de Carvalho.

 

 

A grande chance que eu encontrei para conhecer melhor os pensamentos da nobre deputada Ana Caroline Campagnolo foi durante a sua entrevista para o programa Jovem Pan Morning Show. Ali, ela teria que lidar com jornalistas mais preparados do que aqueles que a abordam aqui em Santa Catarina, além de responder na maior parte do tempo na base do improviso. Em alguns casos, teria que responder questões da vida real e prática, que obviamente é muito mais dinâmica do que a sua teoria fundamentada em pensamentos baseados na leitura distorcida dos ensinamentos religiosos e em uma visão de extrema direita radical que beira a irracionalidade.

E foi aí que eu vi o quão frágil era o discurso da nobre deputada Ana Caroline Campagnolo.

Sua base argumentativa pode muito bem ser chamada de “colcha de retalhos”, e já vimos isso algumas vezes acontecendo no mundo, sem muito sucesso. Ela pega frases isoladas das personalidades históricas do movimento feminista, traz essas frases para o seu contexto, e reforça as suas teorias, sem observar que, ao fazer isso, ela automaticamente descontextualiza uma narrativa que é muito maior do que apenas aquela frase. Basicamente é o mesmo erro feito por James Damore em seu manifesto contra o Google e as suas políticas laborais sobre a ascensão de mulheres em postos diretivos na empresa de Mountain View.

Quando Ana Caroline Campagnolo encara jornalistas que se prepararam para rebater as suas filosofias e pensamentos, ela não consegue contextualizar a favor de suas próprias falas, pois em termos práticos, se sua visão de mundo for aplicada na íntegra, os resultados conseguem ser ainda piores do que temos hoje. Ignorar (por exemplo) o feminicídio como algo real e factível (especialmente aqui no estado de Santa Catarina, onde os casos de mortes de mulheres pelas mãos dos companheiros violentos e possessivos aumentaram de forma considerável nos últimos anos) e chegar a mencionar que é preciso também ter uma delegacia de homens para tratar dos casos de mortes pelas mãos da companheira ciumenta beira ao absurdo irracional do pensamento.

 

 

Enfim… eu já ia tentar explicar por que a nobre deputada Ana Caroline Campagnolo estava muito abaixo daquilo que eu considero como ideal para uma pessoa assumir a função de legisladora. E isso porque eu nem falei das fotos nas redes sociais com taco de baseball, fazendo ironia com os direitos humanos. Entendo que esse tipo de imagem fala muito mais sobre o caráter da pessoa do que qualquer discurso feito em uma Assembléia Legislativa.

 

 

Até porque é exatamente isso que qualquer religião cristã prega, não é mesmo nobre deputada? Jesus Cristo disse “espancai-vos uns aos outros”, certo?

Depois disso, veio a informação/denúncia que, de forma “muito coincidente”, a nobre deputada Ana Caroline Campagnolo teria cobrado seis diárias da Assembleia Legislativa de Santa Catarina em seis viagens (para seis cidades diferentes) onde ela promoveu o seu livro. A deputada alega que realizou os eventos no mesmo dia em que tinha agendas de compromissos da própria Assembleia, e que os eventos aconteceram após o seu horário de trabalho.

Muito conveniente isso, hein, Ana Caroline Campagnolo? Eu tenho que dar os parabéns para a pessoa que organiza a sua agenda com esse timing simplesmente espetacular. Mas… vamos deixar o tempo correr para que a verdade sobre isso apareça. Enquanto isso, eu deixo as palavras da nobre deputada sobre os jornalistas:

“Jornalistas são canalhas e têm problemas cognitivos (…) Estou começando a desconfiar de sua capacidade mental e se você é um jornalista bunda mole ou não”.

Detalhe: os jornalistas contam com tantos problemas cognitivos, são tão canalhas e com tão baixa capacidade mental, que as contas da nobre deputada já foram reprovadas pelo TRE-SC antes mesmo dela assumir o mandato. ou seja, já era para desconfiar que algo estava meio estranho, para dizer o mínimo.

Porém, a vida é tão boa para mim que eu nem precisei esperar muito para essa resposta chegar.

A bênção divina chamada Twitter tem algo muito maravilhoso para qualquer pessoa, que é o seu histórico de publicações. Todo mundo fala muita merda no Twitter, pois é difícil para a maioria das pessoas raciocinar e utilizar o bom senso com apenas 140 caracteres (agora, 280). Eu mesmo já escrevi coisas no passado que muito provavelmente vão se voltar contra mim no futuro, mas posso garantir que nenhuma delas vai resultar em uma palavra jogada na minha cara como um tijolo…

HIPOCRISIA!

A internet não perdoa.

Foram resgatar mensagens publicadas por Ana Caroline Campagnolo no Twitter em um passado não muito distante (entre 2010 e 2012), e descobriram coisas interessantíssimas como declarações com alusão à cannabis, declarações onde a moça queria ganhar dinheiro sem precisar trabalhar, e até a foto da nossa protagonista fumando com um narguilé. Pouco tempo depois do Twitter começar a dar cambalhotas por descobrirem o passado com gostos no mínimo duvidosos, a nobre deputada apagou a conta no Twitter (mas era tarde demais, porque… #prints), e foi se explicar em outra rede social, o Facebook, argumentando que tudo não passou de algumas piadas, e que o narguilé era de essência de chicletes.

 

 

OK. Humor é algo bem subjetivo, Ana Caroline Campagnolo. E… se você não tinha nada a temer… por que apagou as mensagens e bloqueou a conta no Twitter? Deixa tudo lá para a galera se divertir junto com você! Afinal de contas, não foram apenas piadas?

Ou você está com medo que os membros da igreja que você frequenta descubra esse seu passado? Ou os membros da Assembleia Legislativa, os seus eleitores… ou até o presidente?

Do que você tem medo, Ana Caroline Campagnolo?

De que jornalistas canalhas como eu façam posts como esse, mostrando ao mundo que “por trás de uma imagem perfeita e discurso de extrema moral, é sempre bom procurar embaixo do tapete”? Ou que jornalistas burros como eu comecem a procurar cada vez mais o que está obscuro em sua imagem de mulher cristã, perfeita e antifeminista?

Não há motivos para ter medo, Ana Caroline Campagnolo. Afinal de contas, “Deus está do seu lado”, não é mesmo?

Nesse caso, quem deveria mesmo ser chamado de canalhas e burros são os eleitores de Ana Caroline Campagnolo. Não porque agora começou a aparecer a verdadeira imagem da nobre deputada, mas por não se darem ao trabalho de sequer pesquisar o perfil da candidata eleita. Aliás, a minha decepção com o eleitor catarinense chega ao ponto de querer encomendar um caminhão de alfafa e descarregar o produto no meio da Praça XV, bem do lado da figueira, só para ver se eles entendem a mensagem subliminar.

E desconfio sinceramente que não vão entender.

Diante de tudo isso, eu entendo que as pessoas que estão afirmando que Ana Caroline Campagnolo é maconheira estão caindo no vazio. Sinceramente, tal discurso não terá efeito prático para ela ou para quem quer que seja. Acho que podemos subir a barra de dificuldade e realmente alcançar o âmago do coração daquela jovem (apenas 28 anos, repito) e, quem sabe, despertar algum tipo de transformação na mesma.

Chamar Ana Caroline Campagnolo de hipócrita é mais acertado nesse caso.

Defender discursos extremos e moralistas, vendendo uma filosofia de vida que não aplica nem para si, adotando um discurso de ódio ao diferente que é diretamente contrário ao que diz o Cristianismo e adotando uma imagem que nunca teve deveria ser crime inafiançável no Brasil. Por outro lado, se essa lei entra em vigor, muita gente vai ser presa em Florianópolis.

De qualquer forma, a partir de agora, estamos todos liberados a opinar que Ana Caroline Campagnolo se vale de hipocrisia para apresentar as suas narrativas. E ninguém pode ser processado por isso, pois essa é apenas uma opinião, e todo mundo tem direito a opinar sobre quem quer que seja. Não é uma acusação sobre fatos que ainda não foram esclarecidos, nem mesmo um ataque à honra da nobre deputada. Porém, assim como ela considera toda a minha classe profissional de “canalhas”, eu tenho o direito de achar o que eu quiser sobre a personalidade e a postura da nobre deputada.

Não consigo imaginar uma vida longa de Ana Caroline Campagnolo na política. Ela não percebeu que a bolha ideológica que ela vive arrebentou, e que o mundo está mudando. Lentamente. Mas para melhor. Eu prefiro abraçar um mundo onde eu respeito, valorizo e admiro uma mulher por ser a minha regente, muito mais capaz do que muitos homens que conduziram corais ao longo do tempo. Prefiro acreditar que movimentos como o #MeToo acrescentam muito mais para a cultura do coletivo, por dar voz para mulheres que foram subjugadas, violentadas e humilhadas no ambiente de Hollywood, que deveria ser profissional.

E eu estou disposto a sempre defender todas as mulheres fortes da minha vida, que apresentaram pensamentos e visões de mundo muito mais coerentes com a realidade.

É claro que vou dar o benefício da dúvida para Ana Caroline Campagnolo. Todo mundo pode errar na vida, as pessoas podem mudar os seus pensamentos e visões de mundo em função da religião, e piadas com maconha são subjetivas. Mas nada muda o fato que você é o que você faz, e não o que você fala.

E apagar a conta do Twitter falou mais sobre Ana Caroline Campagnolo do que as próprias palavras ditas e escritas por ela mesma.

Não precisa ter medo, nobre deputada. Eu sou apenas um jornalista canalha, com problemas cognitivos e burro.