É bem comum as ‘jovens a mais tempo’ (na boa, eu me recuso a chamar as mulheres mais velhas de ‘idosas’ ou ‘avós’, pois o perfil da vovó de hoje é bem diferente do que a Dona Benta que todo mundo conhece; prefiro chamar de ‘coroa’, pois se alinha mais com as minhas preferências afetivas; e só chamo de ‘velha’ quando for uma velha chata mesmo) se aproximarem de mim pelos mais diversos motivos. Desde uma simples conversa amistosa até um contato mais íntimo (if you know what I mean), eu nunca tive problemas no contato social com as mulheres mais velhas. Eu até prefiro, sendo bem sincero.

E eu costumo conversar de tudo com elas, incluindo os assuntos proibidos. De sexo até a atualização do iPhone. E esse último tema é proibitivo para muitas das ‘jovens a mais tempo’. Não é culpa delas, e não é culpa de nenhum idoso: no passado, eles não eram obrigados a saber programar o videocassete (eu fazia isso em casa), que dirá entender tudo o que acontece no mundo da tecnologia.

Por isso, estou sempre pronto a ajudar. E, nessa semana, eu decidi ajudar a Dona Berenice, viúva, mãe de três filhos, avó de seis netos… e muito preocupada com o futuro do seu telefone novo.

Seu filho mais velho trouxe para ela um iPhone 8 Plus novinho dos Estados Unidos. Apesar da inveja me consumindo por dentro (eu merecia ter um iPhone novo; eu trabalho com isso… mas o mundo é injusto…), eu fui na casa dela ajudar na configuração do dispositivo. Afinal de contas, o que é que eu não faço por Coca-Cola e Ferrero Rocher, não é mesmo?

Toda a configuração do iPhone 8 Plus (cheirando a novo… absurdo…) da Dona Berenice foi feito sem maiores problemas ou dificuldades. Smartphone novo é outra coisa! Deixei o dispositivo funcionando com todas as configurações que facilitavam a vida conectada daquela senhora, na esperança que ela realmente fosse usar o iMessage para conversar com os netos e o WhatsApp para se comunicar com as amigas da canastra.

Mas bem sei que ela vai atrás de namorado e vai receber a foto do Paulo Zulu pelado daqui a cinco dias. É uma questão de tempo.

Mas antes de deixar a Dona Berenice com o seu novo gadget (me sentindo muito feliz com a barriga cheia de Coca-Cola e Ferrero Rocher), eu fui surpreendido com uma pergunta pontual vindo da minha amiga jovem a mais tempo.

Ela ouviu sobre o início dos bloqueios dos telefones piratas pela Anatel, e ficou preocupada com o seu iPhone vindo dos Estados Unidos. Também se preocupou com o Xiaomi Mi A1 que o seu neto tem, e já estava guardando algumas economias para comprar um telefone nacional novo para o rapaz, caso o dele simplesmente parasse de funcionar.

Tentando ignorar o fato que aquela senhora sabia o nome Xiaomi, eu comecei a explicar o que realmente estava acontecendo. Até porque as informações técnicas da Anatel e da imprensa eram realmente muito difusas.

O bloqueio da Anatel só vai acontecer para os celulares considerados piratas. Nessa grupo, entram todos os aparelhos considerados de marcas “alternativas” ou xing-lings que ela (ou você) nunca ouviu falar.

Marcas e modelos não comercializados no Brasil funcionam perfeitamente, pois contam com um registro internacional que o torna identificável na Anatel. É uma numeração chamada IMEI, que é reconhecida no mundo todo.

Por isso, um telefone comprado fora do país, ou de um fabricante que não comercializa o produto por aqui não entra na lista de bloqueio da Anatel. Os modelos internacionais são identificados em todo o planeta. Apenas os telefones que não passam por esse registro (normalmente marcas muito furrecas) ficam de fora.

Dona Berenice ficou feliz, e suspirou aliviada. Não precisava quebrar o cofrinho para gastar em um novo telefone.

Me deu um abraço, e agradeceu pela ajuda de toda a tarde. Me convidou para visitá-la novamente, pois as amigas dela de canastra gostariam de me conhecer e tirar algumas dúvidas sobre os seus respectivos telefones.

De forma até curiosa, a minha agenda de compromissos ficou lotada. Se é que vocês me entendem.