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Essa foto valeu tudo o que aconteceu de ruim no Brasil em 2019.

Em um 2019 onde a ignorância virou palavra de ordem, com o brasileiro médio aos berros inflamando a irracionalidade coletiva, considerando aqueles que não concordam com ele um “inimigo”. Onde eu tive que aguentar dentro da minha família discursos em defesa do indefensável e de gente que só queria cagar regra na minha cabeça porque era mais velho do que eu.

Em um 2019 onde o brasileiro médio preferia abraçar (e compartilhar) as fake news do que aceitar que o jornalismo sério denunciava o que está errado, aceitando a manipulação irrestrita e institucionalizada de informações. Onde eu tive que ver amigos e familiares compartilhando mentiras que nem imbecis e desonestos, sem qualquer noção de escrúpulos ou pensando nas consequências dos envolvidos de forma direta ou indireta nas ações criminosas de distorção da realidade.

Em um 2019 onde o brasileiro médio mostrou todo o seu racismo, xenofobia, misoginia, homofobia e todo o preconceito com o diferente. Onde eu testemunhei o pior de muita gente. O despertar de monstros que estavam adormecidos. A queda das máscaras. A revelação explícita que chamado “cidadão do bem” prefere espancar, torturar e matar com suas próprias mãos. Onde o brasileiro médio não se importa se uma família negra é metralhada “por engano” pelo Exército, ou se um jovem negro é torturado nu e amordaçado.

O brasileiro médio aplaude tudo isso, “em nome de Deus”.

Em um 2019 onde o brasileiro médio abraçou a própria corrupção. Onde o crime do meu político de estimação não é nada diante do crime do outro lado. Eu tive que aceitar o fato que nós, brasileiros, sempre fomos corruptos e corruptíveis. Sempre queremos levar vantagem, sem pensar se alguém será prejudicado. Eu tive que entender que, na verdade, muitos de nós somos grandes filhos da puta. Da escória de Portugal que chegou aqui em 1500, arrasando com a terra, estuprando índias e devastando as riquezas naturais… a troco de nada. Ou melhor, em nome de tudo.

Em um 2019 onde o brasileiro médio pouco está se importando com a Amazônia, e usou as desculpas mais patéticas para justificar a maior sequência de queimadas dos últimos 10 anos. Onde o brasileiro médio (que nem é dono da terra) não se importa com o índio ou com o ecossistema como um todo. Prefere ridicularizar e humilhar quem pensa diferente nos seus apartamentos com ar condicionado. É aquela classe média que não tem bosta nenhuma e se acha elite.

Em um 2019 onde o brasileiro médio aplaudiu a censura explícita. Manifestações culturais que expressavam crítica ao cenário atual foram banidas. O ápice foi chamar beijo gay de pornografia. Beleza: criança dançando na boquinha da garrafa, trair o marido e a esposa, levar a criança para perder a virgindade com prostituta e criar a filha para casar com um bom partido… tudo isso está valendo, cara sociedade cristã ocidental?

Enfim… em um 2019 onde estamos testemunhando a falência moral do brasileiro, onde por muitas vezes eu me senti queimando em um pesadelo onde eu estou bem acordado para testemunhar o horror e sentir a dor de tudo isso…

Eu vejo Fernanda Montenegro, a grande dama da dramaturgia brasileira, nessa linda foto para a Revista 451, me dando esperanças que escolher o lado certo e me posicionar de forma incisiva, mesmo correndo riscos em receber críticas de mentes imbecis e irracionais não é algo feito em vão.

Com essa foto, eu tenho certeza que estou do lado certo.

Fernanda Montenegro, ao assumir o papel de Joana D’arc daqueles que se desesperam ao testemunhar a morte lenta do consciente coletivo, mostra claramente o caminho que devemos seguir:

“Quando acenderem as fogueiras, quero estar ao lado das bruxas”.

Sim, grande dama! Eu quero estar do lado das bruxas. Porque eu quero ser bruxo para as minhas cinzas amaldiçoarem os pirotécnicos acéfalos.

Se os livros forem queimados, eu quero queimar com eles!

Quero que as minhas cinzas se misturem com o poder do conhecimento e a livre expressão de ideias. Quero desaparecer com as palavras que abrem as mentes que perseguem incessantemente as ferramentas para alcançar os seus sonhos, ou o alimento da alma que tem fome do mais saber. Eu prefiro morrer e desaparecer do que testemunhar a ignorância, a ausência de pensamento e opinião e o massacre do diferente, em um conceito arcaico e irracional de dominância.

Quando acenderem as fogueiras, por favor… amarrem o meu corpo junto aos livros. Quero desaparecer com a dignidade de quem passou uma vida inteira tentando evoluir e jamais regredir.

E… se você leu esse texto até aqui, e não concorda com nada do que eu acabei de dizer… apenas uma coisa…

Pode pegar a tocha. Eu já tenho um livro na mão para me defender de você.


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