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Lady Bird: A Hora de Voar (2017) | Cinema em Review

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O inevitável momento de transformação e descobertas da adolescência.

Lady Bird: A Hora de Voar é um drama que conta a história de uma adolescente comum, que vivia em uma cidade qualquer do interior, com pais comuns, que viviam vidas medíocres. Mesmo assim, ela insistia em fazer da sua vida algo especial. Se sentir especial. Ser diferente dos demais. Mas precisava se descobrir de verdade para seguir seus passos.

Christine é a típica adolescente, com seus devaneios, crises, sonhos e desilusões comuns nessa fase da vida. Como não podia deixar de ser, é um ser em negação constante, entrando em rota de colisão o tempo todo com uma mãe neurótica passivo-agressiva, em uma relação onde uma tentava dominar e controlar a outra em tudo.

O espírito rebelde de Christine é evidente quando ela se nega a ser chamada e reconhecida pelo seu nome de batismo. Escolhe o Lady Bird, como uma auto referência à sua necessidade de liberdade, ao mesmo tempo em que aplica para si a metáfora do ‘ser diferente’ (ela mesma se descreve como uma ave gigante com uma cabeça humana).

 

 

Não podemos considerar Lady Bird uma menina excêntrica. Ela busca ser ela mesma em uma realidade tão medíocre que a cerca. Ela busca se destacar em um mundo cheio de gente normal e infeliz. Busca ser autêntica em uma comunidade que esconde os seus segredos o tempo todo, de tudo e de todos. Ainda mais em uma comunidade católica, onde os valores morais ficam mais evidentes e delimitados pela sua forma de viver, e não tanto com aquilo que a sua consciência acusa ser certo e errado.

Esses conflitos existenciais resultam em tropeços e desilusões para nossa protagonista. Nada trágico ou extraordinário. Pelo contrário: tudo o que ela sofre como decepção da vida é o mesmo que a grande maioria dos adolescentes passa: trocar a melhor amiga por uma menina mais descolada, mentir para as pessoas apenas para ser mais aceita e popular, se interessar por um rapaz que é gay, transar com um cara que mente descaradamente só para levá-la para a cama, fumar maconha, uma bebedeira homérica na nova cidade…

A grande maioria dos adultos de hoje e adolescentes no passado já fizeram merdas na vida. Aliás, a adolescência é onde nos tornamos profissionais em fazer merdas. Logo, o filme tem a gentileza de mostrar os erros típicos de adolescente, e assumir que errar é uma parte natural do processo de crescimento e amadurecimento de qualquer adolescente. De qualquer época.

Uma das coisas mais bacanas em Lady Bird: A Hora de Voar é justamente mostrar como esse processo é quase orgânico. É uma trajetória íntima, pessoal e muito intensa. Christine vive todo esse processo de erros e acertos, mudanças e auto conhecimento de forma muito intensa. Ao mesmo tempo, todas essas mudanças vão sensibilizando a menina para aquilo o que realmente importa nessa vida.

Ser você mesmo.

 

 

No meio de sua constante crise existencial e de identidade, que chega em um momento decisivo de sua vida (escolha da faculdade), ela consegue perceber o que realmente é elementar e fundamental na sua vida. Ela basicamente aprende as lições que vai carregar pelo resto de sua vida, se tornando bem mais madura e consciente sobre ela mesma ao iniciar a nova fase de sua jornada.

E todo esse processo começa quando ela assume para si o sonho de ir além do que aceitar estudar em uma universidade pública, em uma cidade medíocre. Ela quer passos além. Ela quer ir além do que ela mesma sonha.

Christine quer finalmente poder voar. E sabia que tudo o que lhe cercava a limitava nesse voo. Logo, era ela quem precisava fazer alguma coisa por ela mesma.

Ao mesmo tempo, a mãe, que é a pessoa mais próxima de Christine dentro da família, começa a sofrer os efeitos desse desejo da menina em querer alçar voos mais altos. Ela se aproxima do inevitável momento em perder aquela que é a sua principal companheira dentro daquele núcleo familiar. A mãe, que torce em silêncio pela felicidade da filha, começa a sofrer da ‘síndrome do ninho vazio’, e invariavelmente acaba se desesperando ao ver a filha partir para ganhar o mundo.

 

 

Lady Bird: A Hora de Voar é um ótimo filme. Tem uma narrativa lenta, que requer uma certa dose de boa vontade para ser apreciada da forma como ela merece. Mas é um filme que ganha e muito nos seus últimos 30 minutos. Você compra a causa dos personagens principais pela qualidade da interpretação. Você sente nesses personagens os seus sentimentos mais latentes, e tem a natural empatia que adquirimos quando nos deparamos com pessoas em uma obra de ficção que podem refletir nossos pensamentos, sentimentos e anseios.

Qualquer um de nós ou já viveu ou poderá viver as sensações que aqueles protagonistas narraram nessa história. A capacidade de humanização dessa trama é enorme. Fatalmente você vai se sentir próximo dessas pessoas, ou se identificar com algumas das situações propostas pelo filme.

E tudo isso, utilizando de forma competente o plano de fundo da religião, onde o espírito contestador de Christine se manifesta em uma de suas facetas mais irônicas. Não apenas pelo fato de que ela não suporta muito ficar ali, mas especialmente porque ela está naquele colégio porque o irmão dele causou problemas antes. Logo, para ‘limpar a barra de todos da família’ (em partes), ela acaba se submetendo a um sistema de aprendizado que ela não concorda. Porém, conforme o tempo passa e a maturidade chega, ela mesma percebe o quanto foi importante colocar um pouco de valores morais dentro de sua personalidade.

Mesmo que ela venha a cometer erros primários.

 

 

Lady Bird: A Hora de Voar tem um texto excelente, um elenco equilibrado, e uma proposta narrativa que realmente enche os olhos e o coração. Mereceu a indicação para o Oscar 2018 de Melhor Filme, pois é uma das melhores histórias de 2017. Fala sobre amor filiar, síndrome do ninho vazio, a importância das verdadeiras amizades, a necessidade de aceitar o outro, mesmo com suas diferenças, o medo das pessoas em não assumir quem são, e o desejo de algumas pessoas em serem elas mesmas e, em função disso, seguir adiante com suas jornadas de vida.

Um filme edificante, diria eu. Um ótimo filme que deve ser assistido por todos aqueles que buscam uma história que mostre um retrato dos adolescentes bem próximo do que eles realmente são.

Um filme didático, dramático, inteligente e envolvente.

 

 


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