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A canção dos meus 38 anos.

Eu estava sozinho. No escuro. Em silêncio.

Estava refletindo sobre os passos que dei. Tentando descobrir onde foi que eu errei. O que eu precisava fazer para recomeçar. Eu não via muitas alternativas ou perspectivas: acreditei que faria o certo quando senti em mim a necessidade de mudar de cidade, de ares, conhecer novas pessoas.

Falhei. Miseravelmente.

Eu estava no escuro.

Seria mais uma madrugada de insônia. Mais uma madrugada na minha vida que eu ia analisar e reavaliar a minha trajetória. Porém, eu estava sem rumo. Com incertezas na mente e no coração. Será que voltar para o lugar onde eu estava foi a melhor decisão? Será que minha vida estava mesmo avançando do jeito que eu gostaria?

Será que eu estava realmente sendo feliz aqui?

Estava preso.

Preso pelas incertezas que eu mesmo criei.

As dúvidas da minha vida não foram apresentadas pelos acontecimentos, mas sim pelas consequências das minhas decisões. Eu sentia meu coração apertado, sentia falta de ar. Nada disso era por conta da fome que passei, ou pelas noites que passei na incerteza se iria ter o que comer no dia seguinte. Eu estava passando mal porque eu não achava as respostas.

Isso me sufocava.

As dores de cabeça eram insignificantes diante do fato de não saber o que fazer. Poucas vezes me senti assim na vida. Eu não conseguia olhar para mim mesmo, não conseguia me conectar com a minha racionalidade. Revirava dentro de mim, na minha bagunça interna para encontrar algo que me desse as diretrizes de quem eu era, para recomeçar a caminhada.

Perder boa parte do tudo o que eu tinha foi a menor perda. Eu estava com medo de perder a mim mesmo, no meio daquela escuridão.

Eu não sabia mais o que fazer. Eu não queria mais me sentir assim.

Eu só queria que aquela angústia passasse. Que algo me indicasse o caminho, ou que deixasse bem claro que eu estava no caminho certo.

Eu fechei os olhos. E algo aconteceu.

Talvez eu precisasse ficar ainda mais no escuro para poder ver alguma luz no fim do túnel. Ou, nesse caso, ouvir essa luz. É uma metáfora estranha, eu sei. Mas aconteceu dessa forma.

Eu sempre digo que a música salvou minha vida por pelo menos três vezes. Porém, ao desenvolver esse projeto, eu estou contabilizando outras tantas que estão aumentando esse número para valores incontáveis. E navegando pelas mais de 5 mil músicas que hoje tenho armazenado no meu smartphone, eu me deparo com “Lentes”.

Era a resposta que eu precisava ouvir.

Tudo o que eu quero ser nos próximos anos está nessa letra. O ritmo que quero seguir na minha vida está no ritmo dessa canção. A vibração que quero transmitir a cada coisa que eu fizer na minha vida se reflete na vibração dessa música.

Eu quero ver o que está por vir. Quero que meus olhos sejam lentes capazes de registrar as belezas de diferentes lugares, os sorrisos de pessoas cativantes, os momentos fantásticos que eu vou testemunhar e participar nas diferentes atividades que eu exerço. Eu não quero parar na minha trajetória. Quero seguir em constante evolução na minha trajetória terrena. Ao mesmo tempo, quero me manter apto a outras oportunidades e possibilidades de aprendizado. Pois tenho plena convicção que só evoluímos quando nos abrimos ao novo. Quando retiramos o velho de nossa mente, e recebemos as novidades de forma aberta e livre, aproveitando sempre o melhor de cada experiência.

A cada vez que as portas se fecharem para mim… a cada vez que tentarem me calar… eu simplesmente vou mudar.

Eu não perdi oportunidades. Os planos apenas mudaram para aparecer planos melhores, causas maiores. Perder quase tudo foi uma das lições mais preciosas, pois eu aprendi a valorizar ainda mais aquilo que eu conquistei com muita luta. Me reforçou a tese de que “sem luta, não há vitória”. Me tornou um lutador ainda mais obstinado, questionador, versátil. Me ensinou a resiliência, algo que você não aprende o que significa em uma busca no Google, mas sim vivenciando. Expondo suas falhas à carna viva, e se recuperando de si mesmo. Mesmo quando querem te deixar no chão.

Meu coração está registrando cada cenário do meu caminho. Cada momento. Cada realização. As fotos se perdem com o tempo, mas o que guardamos no coração fica para sempre. Nem mesmo a morte cerebral é capaz de apagar do coração tudo o que sentimos ao longo da jornada da vida. Aliás, o cérebro só revela as imagens que nossos sentimentos mais profundos registram. Nossas memórias afetivas ficam vivas até o fim da vida. Porque amor é algo que não se esquece. Perdura pela eternidade. Pois é o sentimento mais sincero e duradouro que você pode sentir. Inclusive por você mesmo.

Aprendi com tudo isso a me amar de verdade. A me respeitar. A me valorizar.

Também aprendi que tenho o poder de reescrever a história da minha vida a qualquer momento. Que posso mudar tudo na minha vida quando eu quiser, independente das dificuldades. Que reclamar da vida não adianta. O que adianta é olhar para frente e fazer o que estiver ao seu alcance para ser feliz. Com garra, determinação, criatividade, força, fé e coragem!

Eu finalmente aprendi a me perdoar!

Aprendi a me perdoar porque sou humano. Porque me amo! Porque entendi que os outros também erram, logo, não podem me julgar. Ao mesmo tempo, consigo agora olhar para todos com maior humanidade, a varrer de vez a pré-concepção de que todos precisam acertar comigo sempre. A não mais me cobrar a perfeição, mas sim abraçar a ideia de que estou em constante fase de evolução e aprendizado.

Eu me sentia livre. Finalmente!

Ter todos esses conceitos novos no coração me deram a liberdade de pensar e agir por mim. Me deram mais personalidade. Me tornaram uma pessoa melhor.

As dúvidas se apagaram. Eu ainda estava na escuridão da madrugada, mas não estava na escuridão da minha existência. Eu chorava de felicidade por ter me reconectado com minha essência. Por ter revisado valores, reconhecido erros, aceitando acertos e reformulando meus planos para seguir adiante.

Eu chorava de felicidade porque aceitava que eu era humano ao me perdoar. Eu estava sim com muita vontade de receber um abraço naquele momento. Ao mesmo tempo, eu sabia que não seria necessário, pois eu estava abraçando a mim mesmo. Estava abraçando um novo Eduardo Moreira, que aos 38 anos estava identificando em si novas possibilidades de prosperar e ser feliz.

Eu voltei a respirar.

Meu coração voltou a se acalmar.

Estava amanhecendo. Estava começando um novo dia.

Eu estava vendo a luz do sol novamente.

Me mostrando o caminho que eu escolhi seguir.

“Lentes”
(Carol Navarro, Leonardo Ramos, Paulo Vaz, Pedro Toledo Ramos, Raul De Paula, Simoninha)
Supercombo (com Negra Li), 2016


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