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– Mr. Frank, faltam cinco minutos… 

Ele olhava atentamente para o espelho. Diretamente nos seus olhos.

Ele nunca deu a mínima para as rugas no rosto, os cabelos brancos, a calvície. Sempre deu valor para o seu olhar. Para a forma de olhar para as pessoas. Para o modo em como as pessoas olhavam para ele durante uma conversa. Ele sabia que apenas as pessoas com o coração aberto conversavam olhando diretamente nos olhos. E ele procurou a vida inteira ser assim.

Mas naquele momento, ele conversava com ele mesmo. Olhando nos seus próprios olhos. Silenciosamente. Ele estava tendo aquela última confidência com sua alma, com seus pensamentos, sentimentos, sonhos.

Ele fazia isso porque era a última vez que ele iria subir ao palco. Era o último ato. O último ato de uma carreira espetacular, com vários sucessos, alguns fracassos, mas com o reconhecimento de todos. Com a certeza que suas canções alcançaram muitas vidas. Mudaram algumas dessas vidas. Com a certeza que as canções que ele cantou mudaram a sua própria vida.

Ele se sentia cansado. Nervoso. Angustiado. Sabia que sua voz não era mais a mesma, que seu respirar ficou mais pesado, que o diafragma não mais apoiava da mesma forma, e que suas pernas não tinham a mesma firmeza de antes. Percebeu que seu corpo não respondia mais ao que a mente queria e, por conta disso, decidiu que estava na hora de parar.

Ele se sentia triste. Porque sabia que era a última vez que faria sua música. Ao mesmo tempo, tinha a agridoce sensação de ter cumprido de forma exemplar a sua missão de trazer alegria para corações vazios, esperança para quem não acreditava em mais nada, consolo para corações partidos. Ele se sentia feliz por ter cantado as dores e os amores de várias gerações, por cantar as histórias de nossas vidas. Por dar voz para as nossas emoções, algo que nem todos conseguem fazer ao longo da vida com palavras.



– Mr. Frank…. quatro minutos… 

Ele não tirava os olhos dos seus olhos.

Queria seguir conversando consigo mesmo. Naquele momento, não era mais uma conversa introspectiva, mas sim uma retrospectiva audiovisual. Ele sonhava acordado com tudo o que passou até chegar naquele momento.

As primeiras músicas que ouviu, as primeiras aulas de música, os anos no canto coral, o primeiro concurso, a primeira participação em programas de rádio, o primeiro disco, o primeiro show… o sucesso.

Só ele sabe tudo o que passou para chegar até ali. Só ele sabe o quanto sofreu. Só ele sente hoje as dores no corpo, as pregas vocais danificadas, as mãos sangrando de tanto tocar. As dores de cabeça que só eram aliviadas com analgésicos. O consumo de drogas lícitas e ilícitas….

Hoje, ele olha para o espelho. Um olhar pesado, pensativo. Buscando o passado e traçando um paralelo com o presente. Ao mesmo tempo, trazendo o medo de sucumbir no futuro. O medo de não saber como viver sem a música.

Uma lágrima começa a rolar pelo seu rosto.

Aquela lágrima representa todo o seu arrependimento. Todas as dores sentidas pelas decisões equivocadas, pelos passos fora da estrada. Os tropeços, as quedas. As feridas causadas à si e aos outros. Tudo em nome do seu desejo de prosperar.

Ele sente que poderia ser muito maior do que é hoje. Poderia se tornar o maior de todos. Ser considerado intocável dentro do seu segmento. Inesquecível. Insuperável.

Seus erros só o tornaram mortal e falível. E ele se arrependia um pouco disso.

– Mr Frank, três minutos…

Ele ouve o chamado como um sinal de alerta. Está cada vez mais próximo do fim. O fim que ele mesmo determinou para si. Logo, ele não poderia se arrepender disso.

Ele leva a mão ao rosto para secar aquela lágrima. Nesse movimento simples, ele entende que não precisava se sentir mal por todas as dores causadas por ele mesmo. Ele não precisava se arrepender de nada.

Afinal de contas, ele já era uma lenda aos olhos de quem o amava e admirava. Ele já era, com méritos, um dos melhores de todos os tempos. Sua voz se tornou uma assinatura única, algo que era reconhecido em qualquer lugar do planeta.

Quando ele tocou a pele do seu rosto, ele tocou também suas rugas e cicatrizes. Sentiu a textura dessas marcas, e voltou a sorrir. Porque as pessoas que o amavam e o admiravam faziam isso apesar de tudo o que aconteceu. Apesar dessas mesmas marcas. Quem sabe ele é tão amado por causa dessas marcas do tempo que ele não quis esconder.

Nesse instante, ele começou a pensar em tudo o que ele fez. Em tudo o que o conduziu até aquele momento. E concluiu que teve uma vida para poucos: comeu nos melhores restaurantes, viajou o mundo inteiro, conheceu vários chefes de estado, cantou para multidões, dormiu com algumas das mais belas mulheres… fez sorrir pessoas de varias gerações.

Nesse momento, ele pensou como sua música alcançou o coração das pessoas, e em como esse legado é difícil de se obter em um mundo musical tão diversificado. Em como ele trouxe a felicidade em forma de uma música de quatro minutos. Em como ele entendeu tão bem as emoções humanas, sem ter a chance de ouvir essas pessoas. E, ainda assim, ser amado e admirado por isso.

– Mr Frank, dois minutos… e chegou um recado do presidente!

Ele pega o bilhete entregue pelo assessor. Era a primeira vez que ele tirava os olhos do espelho, desviando os olhos dos seus olhos.

Abre calmamente o bilhete, que diz:

“Obrigado por fazer das vidas de milhões algo mais bonito e feliz. Vamos sentir muita falta do nosso lutador… Obrigado por vencer por todos nós!”

Ele teve vontade de chorar naquele momento. Mas não o fez, com medo de ficar sem voz para o ato final.

Ele não se sentia um vencedor. Ele sempre teve a incerteza se realmente estava passando a mensagem correta, se estava dizendo as palavras certas, ou se estava cantando as histórias que as pessoas queriam ouvir. Nem todo o sucesso e prestígio que ele obteve ao longo de décadas lhe dava a certeza que ele fez tudo da forma certa.

A única certeza que ele tinha é que, ao longo de sua jornada, ele sempre ouviu a voz que cantava dentro do coração. Tudo o que ele sabia fazer era deixar que essa voz interna alcançasse as pessoas, através de suas canções. Jamais ele pensava ser capaz de vencer. Mas ele queria sempre ter o direito de lutar, de tentar. De seguir suas intuições e convicções em nome da música que ele acreditava.

Nesse momento, ele entende que tudo o que ele poderia fazer ele fez. Que viveu do jeito dele, e que a vida lhe entregou uma vida maravilhosa, intensa e inesquecível. Poucas pessoas tiveram a coragem de viver de forma tão livre, aberta e escancarada. Poucas pessoas tiveram a chance de fazer o que realmente amavam, de forma tão entregue, passional, dedicada.

Ele entregou a sua vida ao mundo, e o mundo lhe devolveu uma vida singular. Ele entendia que sua história de vida jamais se repetiria até o fim dos tempos. Entendeu que seu sucesso é apenas uma porção importante de sua fantástica jornada terrena, onde no meio de sorrisos e lágrimas, desastres e triunfos, vitórias e derrotas, ele poderá dizer, no último dia de sua vida, na última nota que ele emitir… que fez tudo do jeito dele. Que ouviu o seu coração. Que viveu uma vida plena.



– Mr. Frank… um minuto… 

Ele se levanta. Não há mais dores. Não há o medo. Há uma energia intensa de querer entregar o melhor espetáculo de sua vida, no seu último ato.

Suas mãos estão frias. É claro que ele estava nervoso. E estar nervoso é a certeza que a adrenalina ainda corre no seu corpo. Que há sangue quente correndo nas veias. Que a vida ainda está viva e pulsante.

De forma elegante, ele arruma a sua gravata e coloca o chapéu sobre a cabeça.

Dá uma última olhada no espelho. Percebe como o seu olhar está vibrante, querendo aquele palco.

Sobre as escadas que dão acesso ao palco. Passo por passo. Ele quer aproveitar essa experiência a cada segundo, em detalhes. Tal e como conseguiu fazer ao longo de sua carreira.

Seu nome é anunciado, e as cortinas se abrem.

Por um instante, os clarões dos holofotes o cegam. Nesse curto espaço de tempo, ele apenas ouve a multidão eufórica com sua presença.

Quando ele abre os olhos, ele vê todos em aplausos entusiasmados. Uma multidão de fãs que o aplaudia de pé. Sem ele cantar qualquer música. Uma sincera demonstração de respeito e amor. Algo que ele podia sentir no mais fundo do seu coração.

Ele fecha os olhos novamente. Ouve as primeiras notas da música. Se deixa levar pela melodia, como poucas vezes se permitiu. Decidiu aproveitar o momento com aquelas pessoas que estavam lhe devolvendo tanto carinho e reconhecimento por ser o músico que ele é.

Frank respira fundo. Busca o ar. Inspira. Se inspira. Oxigena o cérebro e o pulmão. Aspira todo aquele amor para seu coração…

…e começa a cantar.

“My Way”
(Paul Anka, Claude François)
Frank Sinatra, 1969


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