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Gostar de um lugar e morar nele não o impede de criticá-lo, de questionar a população e buscar soluções para os problemas que estão presentes e afetam a todos. É justamente por escolher viver e crescer em Florianópolis que eu faço críticas pesadas a tudo o que está errado na cidade.
 
Eu não consigo viver em um sistema de “quem ama aceita tudo”. A cidade é ótima. Eu amo morar aqui. Mas não concordo a acomodação de vários nativos, a falta de iniciativa, de senso crítico. Não concordo com esse modus operandi onde os problemas acontecem na cara das pessoas, e ninguém questiona nada. O descaso de parte da população com o diferente, se preocupando com o seu umbigo e não demonstrando empatia com quem tem visão de mundo e experiências que não afetam a sua vida de forma direta.
 
Afirmar que quem critica esses problemas está errado, que quem veio de fora tem culpa e que os imigrantes de outros estados “deveriam ir embora se estão incomodados” é um pensamento muito primitivo e irracional. É primário. É ignorante. Explica a origem e a não solução de vários problemas presentes na cidade hoje.
 
Não dá para aguentar essa xenofobia estabelecida por boa parte da população.
 
Se Florianópolis não soube se planejar para crescer, a culpa não é de quem veio de fora. O crescimento era inevitável, uma vez que a cidade tinha essa perspectiva de crescimento. O simples fato de ser uma capital de um estado já implica nesse planejamento. É muito mais culpa de quem já estava aqui do que daqueles que vieram para a cidade para crescer e ajudar a cidade a crescer.
 
Exemplos? Meus dois regentes no Polyphonia Khoros.
 
Mércia Mafra Ferreira. Veio do Rio de Janeiro. Uma das regentes de canto coral mais competentes que eu já conheci. Genial. Exigente. Tem um legado inestimável para essa cidade. E Per Ekedahl. Sueco. Meu atual regente no PK. Um gênio. Um ser de sensibilidade ímpar. Um dos melhores no que faz.
 
Se Mércia e Per reclamarem de Florianópolis, alguns dos chamados “nativos” entendem que os dois precisam ir embora.
 
Pode isso, Arnaldo?
 
Os mesmos “nativos” que não planejaram o sistema viário da cidade de Florianópolis, fazendo com que em vários trechos as pessoas sejam obrigadas a passar “uma por vez”. Os mesmos “nativos” que não investiram em alternativas para o transporte há décadas. Os mesmos “nativos” que testemunharam por 28 anos a “reforma” da Ponte Hercílio Luz sem questionar, protestar ou pressionar os gestores públicos pela entrega da obra. Algo que, por necessidade, beneficiaria a todos.
 
Sem os turistas, Florianópolis não se sustenta. Sem aqueles que vieram de fora da cidade, várias das incríveis iniciativas nos diferentes campos da sociedade jamais aconteceriam. Em um mundo globalizado, onde compartilhamos experiências e atividades, é inadmissível ver pessoas que vivem em uma ilha abraçando a ideia que “temos que viver em uma ilha, só com os nossos, e os de fora não podem ficar e devem ir embora se criticarem a nossa ilha”.
 
OK… devolvam a ilha para os índios. Ao que me consta, os açorianos e alemães que chegaram nessa região ocuparam terras que não eram deles. E até hoje nós, brasileiros (é o que todos somos), agradecemos pelas contribuições culturais e sociais que todos os imigrantes deixaram para o nosso país.
 
Ah… e antes que eu me esqueça.
 
Eu, como negro, não sou imigrante. Meus ancestrais foram vendidos e escravizados. Vieram em navios negreiros antes dos açorianos e alemães. Logo, se seguir essa teoria, essa Terra Brasilis é mais minha do que de outros povos.
 
Mesmo assim, eu brigo pelo bem de todos. Não importa a origem, raça, etnia, condição ou time de futebol.
 
Porque, no final das contas, somos todos brasileiros.

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