“Se eu pudesse, eu queria outra vez mamãe, começar tudo, tudo de novo…”.

Mãe… lá vou eu fazer tudo de novo.

Por que a realidade é melhor do que a ficção?

Porque a realidade não tem roteiro, nem replay. Tudo acontece naquele instante, e não tem como voltar atrás para corrigir o que não dá certo. O imprevisível seduz o ser humano desde os tempos das cavernas, e a prova disso é que o seu marido (que muitas de vocês, esposas, consideram um homem das cavernas) não tira o olho da TV durante o jogo de futebol no domingo nem que você apareça dançando nua na frente dele.

Porque aquele jogo acontece ao vivo. Ver a reprise não é a mesma coisa. Compreenda, esposas do meu Brasil.

Mas eu estou aqui para falar do replay do concerto dos 15 anos do Coral Encantos, e não do comportamento humano diante do futebol. Se bem que eu não posso ignorar algumas similaridades. Por exemplo, no concerto de hoje a noite, tudo vai acontecer ao vivo. Não tem replay, não tem playback. E é isso o que estimula as pessoas a comparecerem para assistir, e motiva ainda mais os coralistas para cantar. É a entrega do nosso melhor. Pois só tem uma chance de fazer.

Em novembro de 2018, depois do primeiro concerto (que foi incrível), muita gente perguntou sobre a possibilidade de uma segunda apresentação. E isso começou a ser ventilado durante a festa de confraternização do primeiro concerto. Todo mundo queria isso. Restava saber quando aconteceria.

E aqui, eu começo a fazer o meu “mea culpa”.

Quando a data de 19 de junho de 2019 chegou até mim, eu fiquei reticente. Véspera do último feriado prolongado do ano, em um mês cheio de eventos (festas juninas acontecendo aos montes), outras iniciativas musicais no mesmo mês… eu cheguei a achar que não ia dar. Acreditei que era uma loucura do Robson, o meu regente (sim, ele é meio louco mesmo, mas só os loucos realizam grandes coisas), e fiquei muito preocupado especialmente com o desenvolvimento musical dos coralistas novos.

E eu não tenho nenhum melindre em reconhecer que eu estava errado. E mais: eu estava errado porque, de forma quase inconsciente, eu estava ajudando para dar certo.

Eu posso provar.

Assim que a Ana Aquini foi confirmada como uma coralista do Coral Encantos, a primeira coisa que eu fiz foi enviar o arquivo com o caderno das contraltos do repertório do concerto de 15 anos para ela, assim como as guias de músicas correspondentes ao seu naipe. Tá, eu violei as regras e passei por cima da autoridade da Panda. Mas tudo o que eu mais queria era que a Ana estivesse no palco comigo, já que ao assistir a apresentação de novembro de 2018, ela ficou entusiasmada com o que viu.

A Ana compartilhou o material dela com algumas das contraltos que entraram esse ano, e esse grupo começou a estudar em separado desde março de 2019. No caso específico da Ana, eu estou dando aulas de reforço para ela desde abril de 2019, ajudando no desenvolvimento dos corais onde hoje ela participa. É um repertório completamente novo, e eu senti que ela precisava de ajuda para participar de alguns eventos em específico, como o Conespa 2019.

Eu sempre fiz isso nos meus corais. Eu sempre olhei para o lado, na tentativa de ajudar o colega a crescer. E vou continuar a fazer isso enquanto eu estiver nesse coral.

A minha ajuda foi uma peça na grande engrenagem que é o Coral Encantos. Eu insisto que esse é um dos melhores corais que eu participei na vida, por causa de diferenciais específicos.

Nos últimos meses, eu observei a capacidade de resiliência do Robson como regente e coordenador desse grupo. Diante de inúmeras dificuldades (internas, externas e algumas impostas pelo curto espaço de tempo para desenvolver todos os projetos), ele sempre demonstrou uma visão focada no que realmente queria fazer. Suportou pressões diversas e superou desafios inesperados.

Tudo isso que eu testemunhei faz com que ele tenha o meu respeito e admiração. E o Coral Encantos é um fiel reflexo desses traços de sua personalidade. Herdou e absorveu a resiliência, a dedicação e o empenho que o Robson demonstra o tempo todo.

Mas o que torna tudo isso ainda mais incrível é encontrar um grupo grande, com diferentes personalidades, origens e estilos de vida, onde é possível sentir que a grande maioria está conectada com esses propósitos, e empenhada em buscar objetivos maiores. Poucas vezes eu vi isso em um coral.

São coralistas incrivelmente dedicados e comprometidos com a causa. São pessoas que cantam por amor e que amam cantar ao lado dessas pessoas que emprestam as suas vozes para a construção do canto coletivo. Tá, eu sei, não dá para gostar de todo mundo. Mas, de um modo geral, é um grupo que se gosta. E, diante de todas as dificuldades, se une para entregar a boa música.

O Robson confia demais em vocês. Isso é um fato incontestável. E ele tem motivos para isso. Eu não estou falando aqui de apoio incondicional. Eu falo de algo maior, que poucos grupos de canto coral conseguiram alcançar. E esse grupo consegue. Algo especial, que eu tento traduzir em palavras como união, comprometimento, companheirismo, empatia, entrega… palavras que não exatamente identificam o que é essa tal coisa. Mas uma coisa dentro das coisas incertas é bem certa: o Robson tem motivos de sobra para confiar e acreditar nesse grupo.

Eu me sinto muito feliz em poder fazer parte de tudo isso. De ser parte dessa engrenagem. De poder contribuir com um projeto musical que continua em evolução, desenvolvendo habilidades que vão além da música, e alcançando resultados positivos que superam as nossas próprias expectativas.

Hoje, o Coral Encantos oferece para a cidade de Florianópolis um replay que não é exatamente um replay. Não é exatamente o mesmo concerto, e não porque modificamos a lista de músicas. Mas porque nós, como grupo estamos diferentes. Enfrentamos problemas, solucionamos problemas, perdemos cantores, recebemos cantores novos.

Reciclamos. Renovamos.

Ter a chance de fazer tudo de novo é um presente que nós do Coral Encantos estamos ‘nos’ dando. Seria uma lástima que um trabalho de quase três meses de desenvolvimento se limitasse a “uma noite e nada mais”. Recomeçar é uma das melhores coisas que o ser humano pode fazer na vida, pois o recomeço é abrir as portas para novas possibilidades, viver novas aventuras, abraçar novas experiências.

E cantar as mesmas notas de uma forma diferente e melhor.

Eu não sei se eu vou conseguir abraçar todos vocês hoje lá no CIC após o fim do concerto. Mas sintam-se abraçados desde já através desse texto. A minha alegria e orgulho pelo privilégio em subir ao palco ao lado de todos vocês até podem ser traduzidas em palavras, mas serão mais explícitas em cada nota que eu emitir com vocês hoje.

Sim. Tudo de novo. Que bom que vamos repetir uma noite histórica.