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Bruna. 16 anos. Se jogou da janela do quinto andar.

Bruna era filha de uma família rica de São Paulo. Ela tinha de tudo, era popular, nada lhe faltava. Aparentemente. Ela tentou se matar, e os seus amigos tentavam entender por que.

Um grupo de colegas de escola foram visitar Bruna em seu rico apartamento. Era um lugar frio, monocromático, cheio de obras de arte sofisticadas. As pessoas ali se sentiam angustiadas pela falta de vida do local. Alguns até entenderam que só o local era suficiente para Bruna tentar tirar a própria vida. Mas os motivos para tal tentativa de suicídio iam além da superficialidade dos fatos.

A mãe tentava acalmar a machucada e traumatizada Bruna em seu quarto, afirmando que o barulho que ela ouvia lá fora era apenas o barulho do vento.

A dona da casa, de forma educada e com ar blasê, se dirigiu ao grupo de jovens na sala, informando que a amiga deles estava descansando, mas que eles poderiam ficar a vontade.

Naquele momento, aqueles jovens estavam desconfortados com o ocorrido, com o ambiente, e com os seus próprios pensamentos. Cada um deles estava pensando sobre suas vidas e seu relacionamento com seus pais. Muitos suspeitam que Bruna tentou se matar porque a relação com seus pais era instável.

Fernando, 12 anos, começou a dissertação em forma de reflexão coletiva. Afirmou que se sentia sozinho porque seus pais estavam viajando. Pediu para dormir na casa de Bruna ou com qualquer um dos amigos. Ela queria colo. Estava carente. Pensava em fugir de casa.

Os amigos tentaram fazer ele desistir da ideia, que era considerada absurda por todos eles. Fernando vivia seus pesadelos internos, seus medos. Mas aceitou voltar para casa sozinho, mesmo que de madrugada. Mas ele não chegaria sozinho em casa.

Andreia, 17 anos, grávida do primeiro filho, questionava sobre seu futuro. Questionava como seria depois que oficialmente se tornasse mãe. Tinha medo do desconhecido da experiência e das incertezas que a maternidade naturalmente traria. Ao menos sabia que queria dar ao seu filho um bonito nome de santo.

Em comum, todos aqueles jovens questionavam sobre suas existências. Questionavam sobre os fatores que os levaram a chegar até aquele momento, e por que as coisas haviam chegado naquele ponto.

Maria, 20 anos, era a mais velha do grupo. Tinha dois filhos. Já podia falar sobre o que era ter uma vida completamente controlada por dois pequenos seres que dependiam totalmente dela. Afirmou que, quando se torna mãe, você muda conceitos. Você tenta ser menos impulsivo e se envolver menos em problemas, pois sabe que as atitudes erradas podem se refletir diretamente neles.

Maria não queria que seus filhos ficassem sem mãe, uma vez que eles já não tinham o pai presente. O pai foi um covarde, que se mandou para outro estado, sem assumir suas responsabilidades.

Antônio, 16 anos, é filho de pais separados. Decidiu ficar com a mãe depois do divórcio. Ainda recebia as visitas do pai, e se sentia um felizardo, pois recebia a atenção dos dois constantemente. Sem falar nos dois presentes que ele recebia nas datas especiais.

Já Pedro, também com 16 anos, era o único do grupo que não tinha os pais vivos. Se tornou criança de rua aos sete anos, e só recentemente conseguiu um emprego que o permitisse pagar um aluguel para um apartamento que ele podia chamar de seu. Não sabe o que é ter o consolo dos abraços dos pais nas derrotas, as broncas deles nos erros. Ele não tinha a dimensão do que era aprender com eles a ser uma pessoa de bem.

Pedro teve que aprender sozinho. Na rua. Mas venceu e prevaleceu.

Já Nathália, 15 anos, sabia que não ia ficar com aquele grupo de amigos por muito tempo. Nos últimos cinco anos, ela morou em sete cidades diferentes. Ela sentia o peso de morar com pais que tinham profissões que os obrigavam a viajar o tempo todo, o que lhe causava problemas para ela se situar no mundo, para fazer amigos, ou para estar em um lugar onde ela pudesse efetivamente fazer daquele lugar a cidade que ela aprendia a amar. E querer ficar.

Por fim, Eduardo, 18 anos. Simplesmente morava com seus pais. E não entendia como eles poderiam ser tão primitivos sobre os conceitos do mundo.

Eduardo se sentia tolido. Limitado. Ele reclamava das broncas, das advertências e dos avisos sobre os perigos do mundo. Sua mãe implicava com suas amizades, seu pai sempre olhava o lado negativo das festas e encontros que ele tinha com outros amigos. Seus pais não entendiam as necessidades que ele tinha, os gritos de liberdade que ele queria emitir. As revoltas que ele sentia pelo fato de querer ser mais livre e atuante sobre sua vida.

Cada um deles dissertou sobre seus problemas com os amigos, em uma espécie de círculo de reflexão. Aquela conversa durou horas, onde cada um deles pode se identificar e se redescobrir dentro daquela realidade.

Mas foi Eduardo quem recebeu a lição mais valiosa.

Maria, a mais velha e madura do grupo, chamou a atenção de Eduardo por ter pais que se importavam, que se preocupavam e acompanhavam o seu desenvolvimento como pessoa. Cada um dos demais teve pelo menos um deles ausentes ou problemáticos, e isso gerou consequências que mudaram a vida deles para sempre. Menos Eduardo, que tinha os pais presentes, e só não queria ver o filho sofrendo.

Maria alertou Eduardo sobre a importância de que ele entendesse seus pais, e que ele iria entender tudo o que eles fizeram no futuro, quando ele se tornasse pai, ou quando efetivamente ele fosse dono do seu próprio destino, assumindo as consequências de seus atos.

Maria disse para Eduardo as coisas mais importantes que ele precisava ouvir naquele momento: que seus pais são tão crianças como ele. Que seus pais erravam na tentativa de acertar. Para que ele não errasse também. Que seus pais erravam para que Eduardo pudesse acertar no futuro.

Eduardo então se viu pequeno diante de todos os problemas dos amigos. Entendeu que sua postura com eles deveria mudar. Que ele precisava entender que tudo o que os seus pais desejavam era que ele não sofresse as dores dos seus amigos no presente, e as dores que eles mesmos sofreram no futuro.

Os amigos ali estavam emocionados com aquele momento de catarse e reflexão coletiva. Se abraçaram e choraram. Seguiram refletindo sobre suas vidas no presente, na tentativa de vislumbrar um futuro mais feliz para todos.

Ali, aquele grupo de jovens entendeu que o que eles mais tinham em comum era o amor. O amor pelos seus pais, por eles mesmos. O amor pela vida, e o desejo de fazer delas algo fantástico, inesquecível.

Queriam vivenciar esse amor hoje. Não queriam pensar no amanhã. Já que o amanhã deles poderia nem acontecer.

Nesse momento, a mãe de Bruna apenas observava aquele grupo de jovens conectados com suas emoções, buscando o apoio um no outro.

Ela lentamente se retira da sala. Se senta em uma cadeira diante da grande mesa de jantar. Ela amassa o lenço que estava em suas mãos para enxugar suas lágrimas.

A mãe de Bruna começa a refletir sobre sua vida. Sobre seus passos até ali. E no que foi que ela errou para que a filha tentasse encerrar a vida daquela forma.

Em um dos pensamentos soltos sobre sua jornada, aquela senhora voltou em pensamento ao passado, quando a sua mãe, diante de um fracasso escolar, perguntou com olhos fixos para aquela pequena criança…

O que você vai ser quando você crescer?

“Pais e Filhos”
(Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá)
Legião Urbana, 1989


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