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Caro fã mais visceral de Star Wars,

Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro que eu entendo perfeitamente o que você está sentindo, e em nenhum momento quero fazer você mudar de opinião ou invalidar o fato de você pensar diferente. Esse texto tem como objetivo principal fazer você abrir os olhos para coisas que são necessárias para entender melhor o que aconteceu em Star Wars, e que até mesmo os mais racionais podem levar essas palavras para a vida.

Posso deixar esse recado porque eu tenho 40 anos, e assisti Star Wars a minha vida inteira. E compreendi melhor do que muita gente as tentativas de recriação narrativa e as necessidades que ficaram pendentes na trilogia atual. Mas, principalmente: sou o cara que já sentiu o que muito sentem e, por sempre procurar aprender com os cenários da vida, quer compartilhar a experiência de quem já se sentiu dessa forma.

Muita calma nessa hora.

 

 

Muitos não conseguiram aprender com Star Wars

Eu não sou nerd. Pelo menos não me considero. Mas fã raiz de Star Wars é nerd. Fato. E se tem uma coisa que a internet mostrou ao mundo é que tem muito nerd retrógrado por aí. O que é uma incoerência, pois é justamente esse grupo de pessoas que deveria olhar para o novo com entusiasmo, e abraçar o diferente com amor e fraternidade.

Nada disso.

Os fãs xiitas de Star Wars, pseudo nerdões virgens que não pegam mulher nenhuma e totalmente revoltados com o fato de serem grandes fracassados na vida entram com facilidade no grupo dos seres mais intolerantes do planeta Terra. E isso acontece porque esse grupo de seres vertebrados semi-racionais não admitem, sob nenhuma hipótese, que o universo que eles tanto amam esteja sujeito a mudanças.

E isso é histórico. Por diversas vezes eu testemunhei nerds marginalizando aqueles que não entendiam Star Wars com a mesma profundidade teórica. E digo “profundidade teórica” porque decorar nomes, locais e acontecimentos não tornamo você um profundo conhecedor da saga. Conhecer esse universo significa compreender as suas filosofias e identificar as lições que a história deixa.

Muito mais importante do que saber quantos anos o Meste Yoda viveu é tentar assimilar para si as lições que ele deixou:

“Enfrentar o medo é destino de um Jedi”, “Faça ou não faça; não existe o tentar”, “Que a Força esteja com você”, “O medo é o caminho para o lado negro”, “Treine a si mesmo a deixar partir tudo que teme perder”, “Muitas das verdades que temos dependem de nosso ponto de vista”, “O medo leva à raiva, a raiva leva ao ódio e o ódio leva ao sofrimento”, “Grande guerreiro? Guerra não faz grande ninguém”, “Ensine sempre o que você aprendeu”, “O fracasso é o melhor professor”, “A morte é parte natural da Vida. Regozije-se por aqueles que se uniram com a Força. Não lamente por eles. Não sinta falta deles. O apego leva à inveja. À sombra da cobiça, isso sim”…

Foram tantas lições deixadas, que Star Wars já vale só por isso. Independente das trapalhadas na narrativa, para aqueles que contam com olhos e mentes abertas, vai aprender lições que são preciosas.

Muito diferente do que a postura do “eu trato a todos como raças inferiores, porque eu sou intelectualmente superior”. Tal postura não torna você um Jedi. Aliás, não torna você nem o cocô que Darth Vader acidentalmente pisou em O Império Contra-Ataca.

Eu bem vi o que muitos do fãs fizeram quando foi revelado que uma mulher, um negro e um latino seriam os três personagens centrais da nova trilogia. Foi necessário lembrar ao mundo que quem emprestava a emblemática voz para Darth Vader era negro, e que até então tais características eram sumariamente ignoradas na franquia.

A Princesa Leia nunca foi protagonista da narrativa e, pior, foi sexualizada em um dos filmes, para delírio dos nerds xiitas. Os únicos negros que tiveram alguma relevância no universo Star Wars eram Samuel L. Jackson e Billy Dee Williams. E eu não me lembro de um latino fazer parte da franquia.

Sem falar na perseguição implacável com Kelly Marie Tran, que foi marginalizada com o preconceito dos fãs xiitas (Daisy Ridley passou pelo mesmo problema no primeiro filme, mas nada comparado ao que ocorreu com Kelly, que precisou sair do Twitter para encontrar um pouco de paz).

Ao longo de mais de 40 anos, Star Wars deixou lições importantes sobre inclusão, respeito ao diferente, aceitação do diferente, a união dos diferentes para resolução dos conflitos, a aceitação própria por ser e se sentir diferente em um universo diversificado, a resiliência e tantas outras coisas que simplesmente passaram batido para um grupo de pessoas que acreditou na superficialidade das batalhas e falas impactantes, sem olhar para os detalhes ou para a aceitação do diferente.

Sem aceitar o novo.

 

 

Muitos não conseguem aceitar as mudanças

As coisas mudam, fã xiita de Star Wars. E digo mais: as coisas se transformam.

Lulu Santos tem razão: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia”. Os dias não são iguais, seu corpo muda o tempo todo e a vida é cíclica. São conceitos básicos que deveriam fazer parte da racionalidade humana, mas passa batido diante de mentes pseudo evoluídas, mas que não conseguem compreender a objetividade (e até a obviedade) da vida quando ela se apresenta diante dos seus olhos.

O seu eu de hoje é diferente do eu de 15, 20 anos atrás. E o seu eu de 2040 será bem diferente do seu eu de hoje. E isso é absolutamente normal para todo mundo. É parte do desenvolvimento e da evolução humana. É o que torna esse videogame gigante chamado VIDA mais interessante, divertido e desafiador. E a metáfora do videogame é perfeita: todo jogo muda de fase, vários personagens em jogos evoluem e terminam o jogo bem diferente do que começaram.

Dito isso, eu pergunto: por que seria diferente com Luke Skywalker? Só porque você quer?

Se Anakin Skywalker se tornou Darth Vader por conta de uma série de acontecimentos que o conduziram para aquela condição, por que você entenderia que com Luke seria diferente? Apenas porque você não acompanhou os eventos que resultaram naquele cara babaca que jogou fora o sabre de luz? Ora, esse é um erro de percepção da evolução e transformação que qualquer ser humano passa.

Ou você corrige isso agora, ou você vai ter uma vida de bosta no futuro.

Nada na nossa vida é linear. Não existe a bidimensionalidade de personalidade para qualquer pessoa. Não existe o “saltar no tempo” e cair em um ponto futuro com o mesmo eu de 30 anos atrás. Isso não faz sentido, na vida real e na ficção.

Uma das coisas que me incomodou em A Ascensão Skywalker foi justamente a necessidade de agarrar ao passado, quando o ideal era contar uma nova história, com novos personagens e com um destino completamente diferente. Isso foi proposto em O Despertar da Força, e – pasmem, pois sei que vou chocar com essa afirmação – tudo o que o último filme da saga Star Wars fez de mais relevante foi tornar Os Últimos Jedi um filme melhor e mais coerente com a proposta de evolução da história.

J.J. Abrams tinha que tomar decisões difíceis para encerrar a saga Star Wars. Primeiro, a morte de Carrie Fisher, algo que afetou os seus planos. Depois, a divisão dos fãs por causa das escolhas tomadas por Rian Johnson em Os Últimos Jedi. Algo que mostrou como esses mesmos fãs tinham sérias dificuldades em lidar com o novo, aceitar o diferente e, principalmente (pois isso é o mais grave de tudo), romper com o passado para encarar o futuro de frente.

Os Últimos Jedi é um filme que tem sim os seus problemas, mas pelo menos ousou tentar algo novo e diferente. Apresentou alternativas diferentes para apresentar novos caminhos para a dinâmica daquela narrativa. Vislumbrou um duelo final entre Rey e Kylo Ren que poderia ser épico.

Mas como J.J. precisava desfazer tudo o que Rian Johnson fez, temos a volta de heróis e vilões, referências mil aos filmes anteriores, situações que são clichês mais do que batidos e uma previsibilidade de roteiro que incomoda a todos que queriam ser surpreendidos com soluções ousadas e inovadoras.

E tudo isso foi feito pelo fan service. Só para agradar ao fã mais xiita de Star Wars. Justamente aquele que nem consegue entender direito a profundidade da história que assiste.

Assim fica difícil mesmo.

 

 

Eu gostei de A Ascensão Skywalker, mas…

Como filme em si, A Ascensão Skywalker caiu no meu gosto. Mas isso porque eu sou putinha confessa de Star Wars. Mas eu entendo que o filme deu vários passos para trás na sua tentativa desesperada em resgatar uma unidade de opinião que jamais seria recuperada, independente dos resultados apresentados.

Ou vocês se esqueceram que é o mesmo J.J. Abrams que soube começar Lost muito bem (algo que eu discordo com força, pois sempre achei essa série super estimada), mas que terminou com o final que muitos de vocês simplesmente vomitam quando lembram dele? Aliás, o próprio J.J. já admitiu em entrevistas que até sabe começar histórias, mas encontra sérias dificuldades em terminar as histórias que escreve.

Pois bem… aconteceu de novo.

A Ascensão Skywalker assumiu o risco de tentar agradar a todos, voltando à formula de O Despertar da Força e praticamente ignorando tudo o que aconteceu em Os Últimos Jedi. O que foi um erro gigantesco. Ao fazer isso, a história volta a se apegar ao passado de forma desnecessária, e um filme que deveria ter um desfecho surpreendente acaba se tornando um episódio final de despedida de duas horas e meia.

Tá, o filme é bom em agradecer aos fãs que ficaram mais de 40 anos acompanhando a história e apresenta alguns elementos históricos que os mais nostálgicos vão gostar. Mas esse é o tipo de filme que deveria surpreender com algo novo e inesperado. Impactar pela ousadia nas soluções narrativas. Deixar na memória de quem viu aquela sensação de vazio por constatar que nada vai ser como antes depois desses eventos.

Muito da culpa de tudo isso vem da covardia da Disney que, no desejo em vender artigos relacionados a Star Wars, decidiu que seria conservadora na narrativa para recuperar a unidade entre os fãs. Seria muito melhor entrar para a história do cinema ao surpreender positivamente pela corajosa decisão de deixar o passado dessa história para trás e efetivamente apresentar uma resolução de conflito entre os personagens novos.

O resultado disso é um roteiro preguiçoso, infantil e previsível. Apenas para agradar aos xiitas. Um erro gigantesco, eu insisto.

Cada vez mais eu me convenço que olhar para o passado é um erro, pois não vamos encontrar nada lá. Ou melhor, vamos encontrar sim: os passos dados por quem veio antes de nós para aprender com esses passos e, em alguns casos, não seguir pelo mesmo caminho.

Muitos esperavam algo novo e surpreendente no final de Star Wars, mas outros tantos fizeram de tudo para que isso não acontecesse. Querer um mundo imutável é de uma burrice sem tamanho. É não perceber que essa história sempre teve discursos muito claros em direção ao novo e ao diferente. E ver esses fãs xiitas revoltados com determinadas escolhas do passado e do presente só mostra que tem muita gente que ainda precisa aprender com as dinâmicas da vida.

Não me entenda mal. Eu gostei do filme, mas gostaria que sua história apostasse no novo.

E para quem não aceita o novo e o diferente naquilo que ama, eu pergunto: por que você perdeu tanto tempo em sua vida assistindo Star Wars para não entender nada?

 


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