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Eu acreditei que seria uma criança para sempre e, dessa forma, encontraria a Felicidade que eu tanto buscava…

Bom, quero dizer… eu sabia que a minha mente e a minha alma não iriam envelhecer. Logo, entendi que até o fim da minha vida, eu teria o direito e, por que não dizer, o privilégio de seguir cantando com as crianças da minha rua aquela cantiga de roda que todos nós aprendemos com os nossos avós naquele vilarejo do interior…

“Senhora Dona Sancha,
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Que nós queremos ver.”

 

Não sei se me iludi desde cedo na vida, ou se a vida não foi sincera comigo por não me contar como seria a minha jornada. Tudo o que eu posso dizer, olhando para trás, é que desde moça eu caminhei, corri e até me arrastei de forma desesperada atrás da minha Felicidade, mas nunca a encontrei.

E encontrar a tal da Felicidade era tudo o que eu mais queria.

Busquei a Felicidade me casando muito jovem, muito moça e sem qualquer experiência de vida. Mas não posso me queixar por isso: tive filhos maravilhosos, netos que eu amo incondicionalmente e um casamento que durou mais de 50 anos. Mas uma união de longa duração não é sinônimo de amor e felicidade. A vida adulta nunca me trouxe de volta a Felicidade do meu tempo de criança.

O mais próximo que cheguei da Felicidade foi nos momentos em que eu ainda podia brincar com os meus netos. Eles me traziam alegria, juventude e amor incondicional. Hoje, eu não tenho pernas para correr atrás deles, muito menos forças para segurá-los em meus braços. É como se eu sentisse a Felicidade cada vez mais longe de mim. Dia após dia. Lentamente se afastando das minhas mãos enrugadas…

Mesmo assim, eu sinto o meu coração palpitar quando eu ouço as crianças da vizinhança, na rua a cantar:

“Senhora Dona Sancha,
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Que nós queremos ver.”

 

Quando eu ouço essa cantiga, me apresso para ir até a janela. Só para ver a Felicidade daquelas crianças e, quem sabe, alimentar um pouco da minha alma com o frescor da juventude que ainda está florescendo no jardim da vida. Porém, não consigo ser mais depressa que meu corpo, por mais que a minha mente ainda se sinta jovem.

Meus passos são lentos. Minha bengala só serve para evitar que eu caia, mas não me torna mais veloz. Minhas pernas pesam. Meu corpo todo dói. Me falta o ar toda vez que eu me levanto da cadeira. E o mais triste de tudo isso: a minha alma, aprisionada dentro desse corpo limitado, chora de desespero.

Eu estou chorando. Sinto as lágrimas rolando pelas rugas do meu rosto, e elas ilustram as marcas que o tempo deixou em mim. Envelhecer não é algo triste. É um processo natural da nossa existência humana. O que é realmente desolador é constatar que, a cada vez que me coloco diante do espelho, sou obrigada a encarar a realidade que eu escolhi para mim: identificar do outro lado uma pessoa com um olhar vazio e deprimido, que abriu mão de sua jornada em busca da Felicidade para viver a felicidade de outras pessoas, acreditando que isso era o suficiente para encontrar a própria Felicidade perdida.

Como eu me enganei… como eu fui tola…

Ah, se eu fosse ainda criança…

Eu não ia me limitar a olhar pela janela aquelas crianças brincando e cantando. Eu iria correndo até elas para abraçá-las, sorrir e cantar alegremente com elas. Ia me sujar no barro, roubar frutas do vizinho, beijar o menino mais bonito da rua, ir ao cinema para comer pipoca e tomar refrigerante, comer muito algodão doce, brincar de pique-esconde e me esconder para não apanhar da minha mãe porque eu cheguei em casa fora do horário.

Eu ia abraçar a minha mãe e dizer o quanto eu a amo, e o quanto ela me faz falta hoje.

Sei que me tornei criança no outono da minha vida, pois dependo de tudo e de todos para viver um dia de cada vez. Porém, se eu voltasse a ser criança, eu diria para mim mesma: “brinque mais, sorria mais, seja mais divertida, sonhe mais, não se deixe levar pelo pessimismo dos outros… faça tudo o que eu não fiz, e faça tudo isso rápido… pois passa muito depressa…”

Sinto que estou enlouquecendo nos meus devaneios típicos de uma velha nostálgica. Mas não posso deixar de conversar com o meu coração a cada vez que eu ouço aquelas crianças cantando, com enorme satisfação:

“Senhora Dona Sancha,
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Que nós queremos ver.”

 

Felicidade… como eu lhe procurei…

Me disseram que você era linda, mas nunca vi o seu rosto. Procurei por toda parte, mas me perdi por outros caminhos onde infelizmente você não estava. Aprendi a lhe amar com todas as minhas forças, mesmo sem conhecê-la. Pois em diversas oportunidades, eu ouvi as pessoas falando sobre a sua existência, e que eu a encontraria no final da jornada para me abraçar com carinho e ternura.

Como eu precisei do seu abraço, Felicidade. Como eu precisei de você nas noites de insônia, nas crises conjugais e nos períodos de depressão profunda. Cheguei às raias do absurdo ao acreditar que, se um dia eu adormecesse profundamente para nunca mais acordar, você estaria lá para velar o meu sono.

Tudo o que consegui foi fechar os olhos e voltar ao meu tempo de criança, para apenas saborear os lampejos de felicidade, como lembrar do gosto do meu sorvete preferido, ou do vestido mais bonito da minha juventude.

Se eu tivesse olhado para os lados, quem sabe eu teria encontrado você ali, na beira do caminho.

Hoje, eu não tenho lembranças. Não tenho sonhos. Não tenho nada.

Me tornei uma pessoa amarga e amargurada, que vive pelos cantos dizendo o tempo todo que “hoje não é mais como era antigamente”, mas constatando com tristeza que eu jamais teria encontrado você no passado. Meus braços vazios de filhos e netos só servem hoje para sustentar a bengala que suporta o peso do meu corpo e da minha solidão.

Sou uma prisioneira de minhas escolhas. Minha mente se manteve jovem, mas minha alma se tornou escura, contida por um corpo que não mais atende aos meus comandos. As lágrimas que rolam no meu rosto foi a forma que a minha alma encontrou para chorar e protestar contra mim mesma.

Felicidade… eu não tenho mais o sonho de encontrá-la no final da minha jornada terrena. Eu sei que estou dando os meus últimos passos. E sei que, ao caminhar lentamente, eu não vou alcançar aquelas crianças que correm cantando alegremente para os seus braços.

Hoje, eu caminho lentamente. À esmo. Sem rumo, sem rota ou direção. Minha voz ficou baixa e rouca de tanto que eu conversei com o meu coração, que se tornou o meu último companheiro.

Seguro minhas mãos, quase iniciando uma oração por misericórdia.

E é para o meu coração que hoje eu canto. Baixinho, para mim mesma…

“Senhora Dona Sancha,
Coberta de ouro e prata
Descubra o seu rosto
Que eu tanto quero ver…”

 


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