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Laura estava mais uma vez sozinha naquele quarto de hotel. Olhando para o pôr do sol.

Ela queria estar com alguém. Queria estar com aquele rapaz que mexeu com o seu coração de forma definitiva. Aquele rapaz que se tornou o sol dela com o passar do tempo. Aquele alguém que ela escolheu para amar, confiar. Aquele alguém com quem contar.

Mas ele foi embora. Como ele vai sempre.

Laura só tinha o pôr do sol para consolar seu coração. Era uma cena bucólica: ela, debruçada na janela do quarto do hotel, vendo o seu amor partir lentamente, caminhando, a perder de vista. Com o pôr do sol como testemunha.

Ela estava cansada de ser abandonada. Ele era uma ótima companhia: educado, gentil, simpático. Ele queria tudo isso para ela o tempo todo. Mas não era possível. Por escolhas dela. Por escolhas dele.

Por falta de coragem dos dois.

Na verdade, Laura estava começando a mudar a sua percepção em relação à ele. Ela achava que o que ele fazia beirava à estupidez. Afinal de contas, ela era bonita, inteligente, articulada, realizava todas as vontades dele… para no final ser abandonada no final de cada dia?

Laura estava pensativa. Reflexiva. Reavaliava sua vida e suas atitudes diante daquele relacionamento. E foi descobrindo que aquela história já não era a mesma a algum tempo.

Os encontros se tornaram menos interessantes, o cinema só tinha filme ruim (e pipoca sem bacon), o sexo nem era mais a mesma coisa, as conversas se tornaram em tensas discussões, recheadas de acusações e chantagens emocionais…

Os sorrisos estavam se tornando cada vez mais raros. Os olhares, cada vez mais vazios. Os beijos, cada vez menos apaixonados.

Laura se pega chorando, olhando para o pôr do sol.

Ela não entende por que ainda ama aquele homem. Não entende por que se vê presa em um relacionamento que já passou da época de dar sinais de desgaste, para agora dar sinais claros que está chegando nos seus momentos finais.

Laura sofre porque não tem coragem de fazer o que é necessário para ser e se sentir feliz. Sofre porque tem medo do que virá depois. Tem medo da solidão que vai invadir a sua alma e as suas tardes.

Por outro lado, ela começa a perceber que estar sozinha não é algo necessariamente ruim. Ela já era sozinha. Afetivamente sozinha. De forma efetiva e prática, ela ainda poderia fazer o que quisesse em sua vida, já que seu único compromisso era se encontrar com aquele rapaz, naquele hotel, todas as tardes.

Sem ele, ela teria mais tempo para si. Ela poderia investir nela mesma, assistir os filmes que ela queria, se reencontrar com amigas que não via há muito tempo. Até quem sabe encontrar alguém que quisesse estar ao lado dela o tempo todo. Se dar uma chance de ser feliz ao lado de alguém que queira ser feliz ao seu lado.

Laura começa a respirar. Percebe que estava sofrendo por causa de alguém que, definitivamente, já valeu mais a pena.

Laura percebe enfim que o grande amor que ela precisa ter na vida é por ela mesma. Ela não estava se amando. Acreditava que, para ser feliz, precisava daquele homem que sequer fazia parte da vida dela de forma efetiva. Ela percebeu que havia se abandonado na ideia de que a felicidade estava naqueles momentos que nem eram dela de direito, mas sim roubados de outro alguém.

Laura consegue respirar profundamente. Entende e aceita que precisa seguir em frente. Ela sabe que, mais adiante, isso vai doer. Que ela vai sofrer. Que ela vai sentir saudades dele. Mas que, com o passar do tempo, isso vai diminuir. Isso vai passar. Tudo nessa vida passa, e a vida em si passa muito rápida em função do tempo.

Logo, ela precisa voltar a viver. A ser feliz com ela mesma. A ser feliz pelo seu amor próprio.

Laura sente uma brisa batendo o seu rosto. Ela não chorava mais. As lágrimas secaram por si. Talvez aquela brisa seja um sinal de que ela está no caminho certo. Que ela começou a recuperar o eixo de seus sentimentos e pensamentos. Aquela brisa foi uma espécie de mão secando aquelas lágrimas que os raios de sol ilustraram em sua face.

Ela sorri ao sentir essa brisa. E decide começar a mudar tudo. A partir daquele momento.

Ela decide preparar um café. Coloca o pó na cafeteira, a água, e liga o equipamento. Começa a ouvir o barulho da água quente misturando com o pó do café. Ela sente o cheiro do café invadindo aquele quarto de hotel.

Laura pensa no tempo em que ela não aprecia esse aroma. Porque não se permite à isso.

Se serve de uma xícara bem cheia de café preto, e se debruça novamente na janela do quarto, olhando para aquele cenário.

Pega o celular. Abre o WhatsApp. E começa a redigir uma mensagem para ele.



“Amanhã eu não vou poder te ver. Nem nesse final de semana. Mas precisamos conversar na segunda-feira. Abraços”.

Laura desliga o celular, para melhor aproveitar a paisagem.

Afinal de contas, ela tem o pôr do sol só para ela. Como sua companhia e confidente.

“Tears Dry on Their Own”
(Amy Winehouse, Nickolas Ashford, Valerie Simpson)
Amy Winehouse, 2007


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