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Parte da jornada é o fim.

Eu não sei como começar esse texto. Nem sei como vou terminar. Mas sei que tenho dentro de mim um mix de sentimentos que raramente eu tive a felicidade de abraçar ao longo de uma vida de 40 anos. Por causa do quase ineditismo emocional, eu sei que acabei de testemunhar algo muito especial. Algo que mexeu comigo por dentro, de alguma forma.

Poucos filmes conseguiram esse mesmo efeito. Posso citar alguns deles, e você verá que pouco ou nada tem a ver com o que eu acabei de assistir: Filadélfia, A Lista de Schindler, A Corrente do Bem, À Espera de Um Milagre, Divertida Mente, Seven – Os Sete Crimes Capitais… na verdade, todos os filmes citados tem algo em comum: todos eles contam com um herói. Até mesmo o Seven tem. Pode ser um anti-herói. Mas é alguém disposto a dar o seu melhor para salvar vidas.

Ou para se vingar.

Na verdade, para o leigo que está lendo esse texto, não se impressione com a força de expressão. Apesar do nome Vingadores: Ultimato, esse é um filme que não fala exatamente de vingança. Mesmo porque, que tipo de lição essa história poderia dar se falasse do troco puro e simples? O exemplo que ofereceria para as novas gerações? Os valores que iríamos guardar? As lições que podemos aprender?

Sim. Temos que aprender alguma coisa que podemos carregar para o resto de nossas vidas. O cinema e o mundo do entretenimento em geral também tem essa missão. Ou melhor, pode ter, se quiser. Mas nesse caso em específico, a Marvel não apenas dá uma aula sobre como contar uma história ao longo de 11 anos. Ensina para todo o mundo como é encerrar bem uma história. E oferece lições para uma geração inteira sobre o que realmente importa nessa vida.

 

 

Uma verdadeira declaração de amor aos fãs da Marvel

 

 

Vingadores: Ultimato é um filme feito para quem realmente acompanhou os 11 anos e 21 filmes da Marvel Cinematic Universe. Lamento, paraquedistas, mas esse longa não foi feito para vocês. Boa sorte na tentativa patética de vocês em tentar acompanhar tudo o que está acontecendo. E lamento mais ainda, porque vocês vão ficar bem longe de sentir o que eu estou sentindo nesse momento.

E o que eu sinto nesse momento é algo especial.

Um filme para os fãs, como tem que ser. Fãs da saga cinematográfica, é claro. Mas também os fãs dos quadrinhos. A história está lotada de fanservices de todos os gostos e para diferentes gerações. Porém, como leigo do universo dos comics, eu consigo imaginar o que é ver um filme onde vários eventos são apresentados com a mesma estrutura narrativa de uma saga dos quadrinhos. Não só na estrutura para conduzir a história, mas até mesmo na estética. É possível imaginar que as grandes sagas da Marvel nos quadrinhos eram ilustradas mais ou menos dessa forma.

O roteiro de Vingadores: Ultimato é, talvez, o seu maior trunfo. Não apenas amarra muito bem as próprias pontas que deixa em aberto, como também se conecta muito bem com o filme anterior na ordem cronológica (Vingadores: Guerra Infinita) e com todos os demais filmes da MCU. Algumas coisas que se fizeram presentes nesse roteiro confirmaram teorias e vazamentos publicados ao longo dos últimos meses. Mesmo assim: o grande barato disso tudo é ver a execução desses argumentos complexos (sim, é preciso prestar atenção e ter assistido a todos os outros filmes para aproveitar a experiência na íntegra e, por causa disso, esse filme não é para os paraquedistas…), e desfrutar de uma experiência pensada ao longo de 11 anos.

Sim. A Marvel conseguiu algo que era considerado impossível: deixou todos os 21 filmes relevantes com as três horas de Vingadores: Ultimato.

 

 

Uma produção impecável (Oscar 2020 a vista…)

 

 

Eu nem preciso falar da grandiosidade dessa produção. Em termos técnicos, é um filme simplesmente impecável. A evolução dos efeitos visuais e dos CGIs faz com que a imersão aumente de forma considerável, e mesmo sabendo que várias coisas são feitas com o computador, você ainda consegue aceitar tais efeitos sem ficar pensando muito nisso. É um universo de fantasia que funciona muito bem, entregando um filme muito competente nesse aspecto.

Olha… eu me arrisco a dizer que estamos diante de um dos indicados ao Oscar 2020. Quem sabe até como Melhor Filme. E não é um exagero da minha parte: tudo está redondo, conectado e bem alinhado. Pode até ter absurdos que passaram despercebidos pelo calor da emoção (na verdade, pelo menos em dois eventos, você pensa: “sério mesmo que ele vai fazer isso?”), mas não desabona o trabalho extraordinário feito pelos irmãos Russo.

Bom… eu acabei de falar o que eu penso de Vingadores: Ultimato. Agora, eu vou falar sobre o que eu sinto depois de assistir a Vingadores: Ultimato.

Esse filme entra fácil na minha lista de melhores filmes que eu assisti em toda a minha vida. Entra fácil na minha lista de um dos melhores filmes de todos os tempos. É, com sobras e muita facilidade, o melhor filme de super-heróis da história.

São 3 horas que não cansam, não dão sono, não sugerem uma ida ao banheiro. São 3 horas que passam voando e, na verdade, você não quer que essas 3 horas passem. Você não vai querer que esse filme acabe, pois é uma experiência audiovisual plena.

Uma experiência audiovisual. E emocional.

 

 

Eu saí do cinema modificado

 

 

Você tem que ser uma pedra sem vida para não chorar em Vingadores: Ultimato. A Marvel estabeleceu uma conexão emocional de suas histórias e seus personagens com a audiência ao longo desses 11 anos, que todos nós temos esses personagens como nossos amigos, como nossos heróis e como parte de nós. Eu acredito que muita gente se salvou por dentro ao acompanhar as histórias de Homem de Ferro, Thor, Hulk, Capitão América e tantos outros. E, quando eu digo “se salvou”, eu quero dizer no literal. Mesmo. Pois quem conseguiu absorver as lições que cada um desses personagens entregou ao longo de décadas está salvo na vida.

Logo, em vários momentos, o filme explora essa conexão para despertar no espectador esse mix de sentimentos que acabam se convertendo em lágrimas. E a melhor forma de aproveitar esse filme é mesmo se deixando levar pela emoção. Mostrar sensibilidade diante de uma narrativa que mostra valores edificantes mostra o quão grande é o seu coração. Ou, quem sabe, que você traz a essência do herói dentro de si.

E a maior lição que Vingadores: Ultimato deixa para todos nós é justamente essa: mostrar qual é a essência do herói. E que todos nós podemos ser heróis. Basta trazer em si o desejo de abrir mão dos seus interesses pelo bem comum. Eu sei que esse era um dos mantras de Stan Lee, um dos grandes gênios que ajudou a construir todo esse universo. Stan acreditava que heróis eram aqueles que até mesmo sem ter poder nenhum, abria mão de sua segurança para proteger o mais vulnerável. E, de forma definitiva, nós, meros mortais, precisamos nos convencer que isso é humanamente possível.

Vingadores: Ultimato encerra uma história de heróis. De um grupo de heróis com poderes extraordinários que, juntos, acreditaram que poderiam ser mais. Mostra ao mundo os reais valores que esses heróis traziam dentro de si: cumplicidade, lealdade, coragem, resiliência.

Esperança.

 

 

Ser um herói é jamais perder a esperança em poder reverter o jogo. Um herói jamais se dá por vencido, usa todos os seus recursos para derrotar genocidas dispostos a ferir inocentes. E, quando esses recursos se esgotam, se sacrificam pelo bem comum. Aliás, ser um herói é entender que sua missão é o bem do próximo porque isso é o certo. É fazer a coisa certa, independente de qualquer força contrária.

Ser herói também significa se perdoar. É entender que não se pode vencer sempre, e que as coisas não vão dar certo o tempo todo. É aceitar que os erros podem e devem ser corrigidos. É aprender a não qualificar as pessoas pelos seus piores erros, mas procurar enaltecer por tudo aquilo que aquela pessoa fez de positivo. É também entender que o milagre não vem do espaço, e que os nossos problemas precisam ser resolvidos por nós mesmos.

É entender o que é se perdoar para perdoar quem virou as costas.

Eu estou terminando esse texto sobre Vingadores: Ultimato porque ele está ficando longo demais. E eu não vou ter tanto espaço assim para contar tudo o que eu achei e senti sobre esse filme. E tenho medo que, se eu me alongar, vou começar a escrever spoilers, e eu não quero isso. Talvez eu esteja empolgado demais com o que eu acabei de ver. Talvez eu esteja otimista demais. Mas eu prefiro ser um cara otimista, pois esses acreditam que podem reverter tudo até o último segundo.

Mas tudo o que eu posso dizer nesse momento é que eu saí do cinema transformado. Modificado. Quem sabe até um ser humano melhor e mais consciente do meu lugar no mundo. Ou pelo menos compreendendo que várias escolhas que eu fiz na vida se alinham com a tal filosofia do herói. E isso me deixa feliz, pois entendo que muitos dos meus acertos e erros não foram em vão. Eu jamais poderia imaginar na minha insignificante vida de 40 anos que eu poderia sentir o meu interior mexido com uma história que tem como base personagens de quadrinhos. E eu penso: se eu, que nunca fui nerd ou fã desse universo, estou assim… imagine aqueles que sempre investiram o seu tempo, dinheiro e melhores sentimentos para os comics da Marvel? Pense naquele nerd que foi marginalizado a vida toda por abraçar uma cultura completamente diferente do que o coletivo e o senso comum queria impor… como ele está se sentindo agora?

Hoje, ser nerd está no mainstream da cultura pop. As pessoas conhecem esses personagens, criaram empatia por eles, compram os seus produtos, acompanham entrevistas… se envolvem como se amassem esses heróis desde o primeiro dia. Não… nem de longe. Esse é um filme de celebração, sim. Mas os fãs incondicionais desses personagens devem comemorar muito mais do que eu. Afinal de contas, eu cometi a heresia de tirar sarro de um filme chamado Homem de Ferro lá em 2008, quando o SpinOff.com.br nem existia.

Hoje, todo mundo sabe quem é o Homem de Ferro.

 

 

O melhor fim que você pode querer

 

 

Vou repetir: Vingadores: Ultimato é um dos melhores filmes que eu assisti em toda a minha vida, e é um dos melhores filmes de todos os tempos. É um divisor de águas no mundo do cinema, da cultura pop e do entretenimento. Depois de hoje, nada será como antes. Tudo muda. Os mais altos padrões foram restabelecidos. Estamos diante de um verdadeiro legado para as próximas gerações. E, com esse filme, está consolidada a maior franquia cinematográfica de todos os tempos.

Sim. Superou Star Wars.

Vá assistir Vingadores: Ultimato sem medo. É mais que diversão garantida. É lição de vida. É lição sobre como se faz cinema para os fãs. É a Marvel mandando na p*rr* toda. E procure assistir ao filme na maior qualidade possível (nada de pirataria, minha gente, pelo amor de Deus). Esse filme merece ser visto com a máxima atenção e dignidade. Mesmo assim, com toda certeza você vai querer assistir a esse filme mais de uma vez.

E, de coração, eu espero que você saia da sala do cinema depois de 3 horas de filme com boa parte das impressões e sentimentos que eu carrego comigo nesse momento. Poucas coisas no mundo do entretenimento são tão recompensadoras do que trazer no coração a felicidade de ver um filme que entrega tudo o que promete ou mais.

Sim. Vingadores: Ultimato entrega mais do que você espera. Até o segundo final.

E… sim, Stan Lee… Excelsior! Acho que agora eu sei o que isso significa.


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