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A maior lição musical da minha vida veio de alguém que jamais leu uma partitura na vida. Mas amava cantar. E cantou muito para mim antes que eu nascesse.

Demorou para que eu colocasse uma musica dos Beatles nesse projeto. Mas eu queria que fosse especial, porque eu sabia que só teria uma chance para escrever sobre essa música. E teria uma chance para compartilhar essa experiência pessoal com vocês.

Eu tive ótimos regentes e maestros ao longo da vida. Pessoas que me ensinaram tudo o que sei sobre música. Se hoje eu leio partitura e consigo decodificar acidentes musicais, intervalos, cromatismos, identificar dissonantes e até reconhecer um ritornello quando vejo um (acredite, isso é importante) é por causa desses competentes profissionais, que até hoje me ensinam e me inspiram a ouvir e fazer boa música todos os dias.

Mas a minha maior lição de música, aquela que vou carregar no meu coração até emitir a última nota da minha vida veio de alguém que não tem grandes conhecimentos técnicos. Mas que gostava de música. Sabia ouvir música. Alguém que cantava para mim.

Minha mãe.

Um belo dia, quando criança, eu estava ouvindo minhas músicas barulhentas. Não nego, o rock nacional da década de 1980 salvou minha infância de, por exemplo, gostar dos Menudos (minhas irmãs gostaram e se ferraram por isso), que já era ruim pra caramba na época. Mas minha mãe queria que eu desse passos adiante. Queria que eu ouvisse uma mensagem que eu carregasse comigo pelo resto da vida.

Então, ela disse:

“Ouça The Beatles”.

E eu resolvi ouvir o seu conselho.

Para mim, The Beatles dividiu a história da musica entre antes e depois. Foi um fenômeno musical sem precedentes, que durou o tempo que tinha que durar (apesar de muitos entenderem que poderia ter durado bem mais se não fosse Yoko Ono), apresentando uma evolução de qualidade sonora simplesmente assustadora. Uma banda que teve a coragem de experimentar de tudo, tanto dentro como fora da música. Não escondeu o fato que produziu música sob efeitos de alucinógenos, e o resultado disso promoveu a evolução de composição musical, de sonoridade, do estudo de novos timbres e todo o conceito de contracultura que viria nas próximas décadas.

The Beatles saiu do lugar comum. Marcaram a história. Foram únicos.

Estou bem longe de ter 10% da genialidade do quarteto de Liverpool. Mas é a banda que faz a música que é referência para a música contemporânea. É, talvez, a maior história que a música pop produziu em todos os tempos.

Mas… falando de “Yesterday”… ou a melhor canção contemporânea de todos os tempos.

A música com maior número de covers e execuções em rádios no planeta veio de um sonho. Paul McCartney sonhou com essa melodia. Acordou e rapidamente foi para o piano registrara a primeira parte da música com um gravador. John Lennon compôs a letra e o miolo da estrutura musical. Pronto. Simples. Genial. Perfeita.

Tão perfeita, que não usa guitarra, baixo ou bateria. Apenas McCartney, com um violão e um quarteto de cordas. Nada mais.

Eu me lembro dessa música desde que eu me entendo por gente. Eu me lembro que quando ouvia as primeiras notas da melodia dessa canção eu simplesmente me emocionava. Aliás, me emociono até hoje. Eu achava aquilo lindo, mas não entendia que a sua solução era tão simples quanto colocar notas em uma escala. E aí vemos de novo a música mostrando claramente que a beleza das coisas está na sua simplicidade. Não é uma melodia absurdamente elaborada, mas emocional o suficiente para tocar qualquer pessoa que está com a mente e o coração abertos para aceitar isso.

A mesma regra vale para a letra de “Yesterday”. Não é complexa, não é profunda. É uma balada de coração partido, onde o “ontem” se refere ao passado onde ele era feliz com a pessoa amada, mas que ficou para trás, já que ele a perdeu. Simplesmente isso.

Mas… quem não perdeu alguém que amou?

As pessoas se identificam com músicas de dor de amor, de coração partido, de fim de relacionamento. Porque “amar” é um verbo comum a qualquer ser vivente. Existem várias formas de amor. Várias formas de amar. Mas “amor” é um sentimento comum a todos. Em diferentes momentos, diferentes tempos.

Mas gosto de pensar em “Yesterday” como também uma canção de nostalgia. Daquele que pensa no passado que não volta mais, dos bons tempos onde as canções de amor eram significativas demais para chorarmos por horas… e horas depois usar uma roupa nova para buscar um novo amor.

Eu às vezes sou saudosista sim. Sinto falta daquele ontem que me fez feliz. Às vezes eu sinto falta das coisas que não vivi, ou de um passado que gostaria de ter testemunhado. Esse é um tipo de nostalgia que apenas as almas envelhecidas compreendem.

Por outro lado, eu vivo um momento da minha vida onde cada vez menos olho para o passado. Cada vez menos reclamo dos amores perdidos, do tempo que era bom, onde eu fui feliz. Hoje, o presente é tão incrível, que não lamento mais o que passou. Me lembro do passado com carinho e amor, por saber que ele é parte da minha história. Mas que ficará no seu lugar, que é no passado.

Não porque eu não quero dar passos para trás. Mas porque ter boas lembranças na vida é algo que precisamos ter quando o presente bate mais forte. Ter um passado que você quer lembrar é uma prova que você soube viver tempos felizes, aproveitou os momentos da vida da melhor forma. Que tem alegria em contar e relembrar tudo o que tão bem fez para você um dia.

“Yesterday” é um dos elos de ligação mais fortes que tenho com a minha mãe. Eu sei que ela adora essa música, e serei apaixonado por essa canção até o fim da vida. Posso dizer que essa foi a música que me fez olhar para a música com outros olhos, ouvir as canções com outros ouvidos. Me fez perceber a música além do que aquilo que meus ouvidos poderiam ouvir, mas também despertar as músicas que embalavam meu coração.

Com o passar do tempo, minha alma musical ganhou voz, timbres, ritmos e melodias. Minha mente passou a pensar em música o tempo todo. Meus olhos enxergavam as canções dos carros parados, dos passos apressados… dos olhares amigos que também transmitiam a música que vinha de dentro.

Minha mãe. Sem ler uma partitura, me ensinou uma das mais importantes canções da minha vida.

Sem saber, mudou minha vida para sempre. De forma positiva e definitiva.


“Yesterday”
(John Lennon, Paul McCartney)
The Beatles, 1965


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