Ao longo dos anos, os meus regentes me convenceram que compreender as notas em uma partitura era essencial para a execução musical. Mas a parte mais importante na leitura da partitura é identificar o que o arranjador queria dizer com aquelas notas. Logo, olhamos para todas as vozes na partitura de canto coral, para entender o que as outras vozes estão fazendo, para aí sim colocar a sua voz na construção musical coletiva.

Essa foi uma grande lição que o canto coral me deixou: compreender o próximo, se integrar nele e contribuir com a sua visão de mundo para o sucesso do coletivo. Depois disso, eu nunca mais vi a música do mesmo jeito. Eu precisava identificar como cada nota poderia se comunicar com os meus mais profundos pensamentos e sentimentos.

Eu não sou um ótimo cantor. Eu sou apenas um coralista que procura fazer o que faz com amor. Aprendi a ler partitura pela necessidade de melhor compreender o processo musical, mas foi apenas abraçando com amor cada coral, cada projeto e cada arranjo que eu consegui contribuir da melhor forma possível com cada um dos meus regentes e colegas coralistas.

E sou muito feliz pelos efeitos positivos que o canto coletivo produziu em minha personalidade.

Sem isso, eu jamais compreenderia que o “Adeus! Adeus!” do naipe de contraltos precisa das pausas entre essas palavras, pois quando dizemos ADEUS para quem amamos, não conseguimos prolongar a frase, pois a despedida e as saudades são sentimentos que sufocam a alma. E, mesmo assim, entender que as sopranos atuam como o vento que vai transmitir a palavra Adeus até o pescador. Ao mesmo tempo, compreender que, como tenor, sou o mar intenso que traz a sensação de angústia pela possibilidade do pescador não voltar para a mulher amada.

Entender que bemóis e sustenidos são os diversos obstáculos que qualquer pessoa pode enfrentar na vida fez com que eu me tornasse alguém mais otimista. Compreender como os ritornellos funcionam me trouxe a conclusão que a vida funciona em ciclos, onde voltamos ao ponto inicial de tempos em tempos. Aliás, viver é saber recomeçar.

Viver também é compreender que as alternâncias de intensidade entre o piano e o forte devem aparecer no momento certo, e que ter a sensibilidade de aplicar o crescente e o decrescente em palavras e atitudes mostram a nossa inteligência emocional em saber ouvir e se fazer ouvido.

Mas o que mais me inspira a fazer o canto coral é saber que, através da música, os meus sentimentos vão se comunicar com os sentimentos do colega coralista ao lado, através de um elemento comum. Que as metáforas de uma letra podem harmonizar pensamentos e emocionar pessoas.

A minha felicidade é poder desejar que alguém que eu amo possa descobrir a felicidade de caminhar e dançar através de uma canção. Que eu posso enxergar a bondade em alguém por entender que essa pessoa é capaz de orar para os proscritos. Até mesmo em passar a esperança por dias melhores através de uma canção de protesto que diz “amanhã vai ser outro dia”.

A cada dia que passa, eu percebo claramente que eu vou fazer música até a última nota da minha vida. Até lá, a cada nova partitura que aparecer na minha frente, eu vou procurar aprender as notas, os acidentes, as dinâmicas e as lições de vida.

E eu só queria compartilhar esses pensamentos com vocês.

Obrigado pela atenção.