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Uma súplica para fugir de uma saudade que não pode chegar.

Me espera.

Quando eu ouvi essa frase, eu senti um aperto no coração. Eu senti a saudade chegando antes mesmo dela se fazer presente. Talvez eu soubesse que permanecer seria (ou será) um grande erro. Um dos meus maiores erros. Mas só vou descobrir isso no futuro. E essa frase veio no presente.

Quando eu ouvi essa frase, eu não podia ver você. Mas estávamos distantes demais um do outro. E uma tempestade nos separava. Eu olhava pela janela toda aquela chuva caindo, e pensavam em como você estava. Fiquei preocupado quando você deu a entender que iria sair naquela chuva apenas para chorar às escondidas, porque os demais não podiam descobrir que você estava chorando.

Mal sabia você que os seus olhos vermelhos de tanto chorar iriam denunciar o seu sofrimento.

Me espera.

Quando eu ouvi essa frase, eu sentir sua dor. Senti a dor que eu estava sentindo durante muito tempo. Quando eu me senti sozinho nesse mundo. Quando me vi sozinho.

Eu sei o que é ficar sozinho. Sei muito bem o que é me sentir sozinho. Sei o que é ficar para trás. Pior: eu sei o que é ser deixado na beira do caminho com todos os meus sonhos despedaçados em minhas mãos.

Sei o que é olhar para o nada e perceber que nada ficou conosco, a não ser nossos sonhos frustrados, o amor ferido. A desilusão. A sensação de perda é tão forte, que a única coisa que a gente consegue é simplesmente chorar. Com sorte, você se abraça, tentando encontrar um ponto de apoio em si para ao menos se consolar.

É inútil. Os braços ficam tão pesados, que não temos forças para envolver nosso machucado coração. Acabamos entregues à triste realidade, onde mais uma vez estamos sozinhos.

O temporal é intenso. Não conseguimos ver nada na nossa frente. A não ser a constatação da realidade onde estamos efetivamente sozinhos nessa vida.

Nesse momento, percebo que não consigo ver nada por conta das lágrimas que inundam meus olhos, deixando minha vista turva. Buscando por você, que também se sente perdida diante dessa tempestade.

Me espera.

Quando eu ouvi essa frase, eu me lembrei de todas as vezes em que eu pedi para ficar. Em que eu insisti mais um pouco, pensando sempre no quanto aquela pessoa é importante na minha vida. Em quanto a sua coragem, ousadia e alegria me estimularam a ser cada vez melhor.

Me lembrei também de todas as vezes em que não quis ficar. Em quantas vezes virei as costas e seguir em frente, sem olhar para trás. Em quanto eu posso ter parecido um egoísta e insensível aos olhos dos outros, apenas pelo medo de ser abandonado. Apenas pelo medo que não brigassem por mim para me manter vivo na vida de alguém.

Me espera.

Quando eu ouvi essa frase, eu me vi completamente perdido nos remendos de personalidade da minha vida. Em quantas vezes tentei fugir de mim mesmo assumindo personalidades que não eram minhas, usando roupas que não diziam quem eu sou, ou cantando canções que jamais acreditei. Aliás, eu fugi de mim mesmo e fugi daqueles que por tantas vezes me pediram para ficar simplesmente porque me amavam exatamente do jeito que eu era.

Inclusive com minhas imperfeições.

Talvez esse temporal que cai nesse momento tente me mostrar que eu também devo amar pessoas imperfeitas, Me desconstruir para receber o amor de forma intensa, sincera e plena. Ter de volta a esperança de finalmente encontrar em mim alguém com o espírito livre. Olhar a todos com alegria e bondade, entregando o melhor de mim. Nada menos que isso.

Me espera.

Quando eu ouvi essa frase, a única coisa que eu queria era te abraçar, apenas para você chorar. Muito provavelmente eu iria chorar junto com você, mas não importa. Pelo menos nossas lágrimas correriam juntas, ou se encontrariam em fontes de sentimentos sinceros. Nos tornaríamos mais fortes. Mais próximos, apesar de toda essa distância.

Eu só queria te abraçar… para te aquecer a alma. Para te dar a certeza que amanhã vai ser melhor, e que jamais eu vou te abandonar. Para te dizer que, apesar de todas as minhas limitações e imperfeições, que eu seria a sua luz para você passar por esse temporal. Comigo. De mãos dadas, de braços dados… ou se preciso, te carregando nas costas.

Não importa. Mas passaríamos por isso juntos. Apenas para ver o sol do dia seguinte.

Porque eu não quero que a saudade domine meus dias. Não quero pensar em você e ter meus braços vazios. Não quero me lembrar de você sem ter a certeza absoluta que você estará comigo no pior e no melhor, nas vitórias e derrotas. No amor e na dor.

Me espera.

Quando eu ouvi essa frase, eu decidi ficar.

Posso sofrer? Claro que sim. O caos pode voltar? É claro que sim.

Os ciclos de dor e prazer são os que dão a tônica do termômetro da vida. São os que tornam a nossa jornada terrena algo especial. Poderia simplesmente caminhar para não mais voltar. Deixar você para trás. Mas… eu não consigo. Eu não quero!

Você é mais importante para mim do que você possa imaginar! Você é mais importante para mim do que eu mesmo posso acreditar. Eu quero dar tantos e quantos passos forem necessários, mas só aceito fazer isso ao seu lado.

Você não sabe, mas… está me dando vida! Está me desafiando a respirar debaixo dessa chuva torrencial. Está me desafiando a te enxergar de uma forma que ninguém conseguiu fazer.

Me espera.

Quando eu ouvi essa frase, eu vi você. No meio do temporal. Eu reconheço você de longe, mas é no seu olhar que eu me encontro. Que eu me sinto em paz. Que eu tenho certeza que, no meio de tanta loucura causada por você e pelo mundo que me rodeia, eu vou me encontrar… para ser feliz.

Obrigado por estar no meu caminho. Obrigado por me enxergar quando ninguém quis me ouvir. Por me ouvir quando todos estavam surdos. Obrigado por me dar a coragem de enfrentar esse temporal, mesmo sem saber onde vou pisar. Mesmo tropeçando nas pedras do caminho, caindo, me machucando. As minhas feridas não são nada diante do desejo desesperado em enfrentar todo esse temporal com você.

Eu sei… você está com medo. Com medo de ser abandonada e sofrer.

Eu também. Tenho muito medo de terminar tudo isso sozinho. Sem você.

Mas… saiba que, daqui por diante, sempre que um de nós pensar em partir para não mais voltar…

Um vai ter a coragem de dizer para o outro as palavras que serão o pedido de urgência para que o adeus não seja para sempre.

As palavras que darão a certeza para o outro que os sentimentos permanecem intactos. Que o amor se faz presente. E que ele não vai morrer, não importa o que aconteça.

Nesse momento, não importa onde eu vou estar… mas eu estarei olhando para você. Com todo o amor que tem no meu coração. Não importa o quanto eu estarei sofrendo, o quão difícil tudo estará. O quanto meu coração estará machucado.

Nesse momento, eu simplesmente estarei vulnerável e exposto à carne viva, apenas para me defender de qualquer coisa que possa me fazer perder você, ou desistir de ter você comigo no meio da tempestade. Qualquer pensamento que me afaste da ideia de te abraçar debaixo dessa chuva torrencial.

Eu vou querer apenas te abraçar. E dizer:

“Tenta me reconhecer no temporal… me espera… eu volto já…. por favor… me espera!


Eu ainda estou aqui…” 



“Me Espera”
(Lucas Lima, Sandy Leah, Tiago Iorc)
Sandy, 2016


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