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Mais um dia dos pais que eu não estou presente para dar um abraço físico nele. Mas até aí, empatou: eu também não estava presente no dia das mães nesse ano, e eu me lembro do quanto eu sofri nesse dia. Hoje, doeu menos. Um pouco menos.

Eu não poderia sair de Florianópolis nesse momento, pois vários compromissos importantes me seguram na cidade. Compromissos de trabalho, dos corais, da minha vida pessoal. Eu escolhi assim. Não posso reclamar. Mas isso não impede que eu fique um pouco triste ao não poder abraçar o meu pai hoje.

Na última vez que eu estive em Araçatuba (SP) para visitar a minha família, eu me preocupei mais com ele. Com a sua saúde física e mental. Não tanto por causa da idade, pois o meu pai ainda está bem lúcido e teimoso aos 71 anos. Mas por causa das circunstâncias da vida e pela realidade que o cerca.

Não é fácil para um senhor de 71 anos.

Ficar com ele por dez dias não alivia as barras, não elimina a saudade e até pode resultar em alguns desentendimentos pontuais (eu já disse para vocês que ele é teimoso, certo?). É apenas um placebo que um oferece ao outro com a presença física temporária. Durante muito tempo ficamos distantes pelas diferenças nas personalidades e visões de mundo, e essas diferenças ainda existem. Mas eu nunca estive tão próximo do meu pai como agora.

Pode parecer um absurdo da minha parte, mas sentir que o meu envelhecimento está me tornando uma pessoa ainda mais sensível às questões emocionais foi um dos elementos para essa reaproximação. Eu já disse algumas vezes que eu precisava me perdoar antes de perdoar com mais facilidade as pessoas que eu amo. E esse presente que eu dei para mim do auto perdão reflete nele e em outras pessoas.

Eu me preocupo com o fato do meu pai ter diabetes (ele precisa aplicar insulina todos os dias), com os demais problemas de saúde, com a falta de sono, com um eventual isolamento emocional e social. Me preocupa também a visão que ele tem do Brasil de hoje, e apesar de achar isso um absurdo para alguém que é inteligente o suficiente para ver o que é certo e errado… eu desisti de querer me sentir melhor ao mostrar para ele que eu estou certo, e ele, errado. Eu estou abandonando essa fase da minha vida, felizmente.

Só quero pensar que ele é o meu pai. E que eu amo o fato de ter muito dele em mim.

Se você acha que eu escrevo bem (algo que tento melhorar o tempo todo), você precisa ver a forma em como o meu pai se expressa com as palavras. É muito melhor do que eu. E hoje, eu entendo que escrevo na internet por causa dele. E por ele também. Assumo a responsabilidade das minhas palavras, mas me esforço para escrever cada vez melhor por causa dele.

Se você acha que a minha voz é bonita (e, acredite, eu odeio me ouvir cantar), você precisa ouvir o meu pai falando. Ou melhor, na locução: entonação de voz bem colocada e dicção perfeita. Algo que eu até me esforço em ter, mas não consigo. Quem sabe em um futuro não muito distante. Quem sabe em outra vida.

Quem sabe se na próxima vida ele for o meu pai de novo.

Você pode achar que um texto em pleno dia dos pais é algo trivial, clichê e muito conveniente. E eu concordo com você. É bem clichê.

Acontece que eu acabei de receber a foto que meu pai mandou via WhatsApp, usando a camiseta que eu deixei para ele como presente do dia dos pais antecipado. Eu não tive dúvidas em fazer uma videochamada para falar com ele por alguns minutos. E não foi por causa do item material. Eu comprei a camiseta muito mais pela frase que está nela.

E, principalmente… porque, em 2019, eu acredito nessa frase como uma verdade inescapável para o meu pai.

A saudade bate de forma tão forte, que desabamos um pouco. Pensamos na vida, em tudo o que vivemos, no que sentimos no presente… e o resultado é ir para o computador escrever alguma coisa.

Eu termino esse texto emocionado (para variar), porque eu realmente queria estar com ele hoje, mas não foi possível. Porque eu fiz escolhas para crescer e vencer na vida que hoje me colocam dois estados longe dele e das demais pessoas que eu amo.

A minha alegria no dia dos pais de 2019 não é apenas em ter um pai vivo para escrever um texto clichê, mas é também em acreditar, com todas as minhas forças, em cada palavra que eu escrevi aqui e que estão em uma simples camiseta. Qualquer presente material é efêmero diante do fato que este jovem adulto cheio de problemas, sem dinheiro no bolso e com uma diabetes herdada tem a satisfação e a coragem em dizer, para quem quiser ler…

Eu tenho muito do meu pai dentro de mim. E sou muito feliz por isso.

O tempo me mostrou que esse é um dos maiores presentes que eu vou carregar na vida. E ter meu pai lendo as minhas palavras hoje é um sinal claro que esse presente é o meu melhor presente.

“Tamo junto”, pai!


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