Eu decidi deixar de carregar o peso do mundo em meus ombros, deixei acontecer, e recebi como prêmio o melhor show da minha vida.

Bono Vox que me perdoe. Dave Grohl também. Eu sempre serei grato a vocês dois por liderarem duas das melhores bandas de rock que eu vi tocar ao vivo. Mas hoje, eu posso agradecer também por serem influenciados de alguma forma pela música da maior banda da história. The Beatles é um caso de amor antigo. É um amor intra uterino. É a maior lição que eu poderia aprender ao fazer música. Fui um felizardo por ter uma mãe que me ensinou essa lição, antes de aprender qualquer nota…

– Ouça os Beatles… ame os Beatles…

A primeira mulher que eu amei na vida me entregou um amor que será eterno. E eu compreendo que eu nasci no tempo certo, mesmo sem testemunhar o que foi a Beatlemania. Muito provavelmente eu precisava viver em um tempo onde a ausência dos Beatles fosse a força motriz para que tanta gente testemunhasse a favor da banda, fazendo um eco perpétuo no seu legado, e convertendo um fenômeno musical em um movimento de mudança de paradigma, dividindo a história da música entre antes e depois.

Ao longo de anos, muito do que eu consumi em música recebeu a influência direta e indireta do trabalho musical dos Beatles. De Oasis a Jay-Z, passando por Legião Urbana e Skank. Tudo o que a minha geração ouviu e produziu tem alguma influência direta da música do Fab Four. Hoje, eu faço música muito em função da existência dessa música. Sem Beatles, eu não estaria em grupos de canto coral. E sem o canto coral, eu estaria morto.

 

 

Então, a notícia que Paul McCartney estava em turnê no Brasil e faria um show em Curitiba (PR), cidade que fica a apenas 305 km de Florianópolis (SC), foi um verdadeiro tiro na minha cabeça. Por alguns dias, eu refleti sobre a possibilidade de estar no show. Me preocupei com a questão financeira, a logística e até com o fato de ir sozinho. Agora, eu entendo perfeitamente que, por mais que todas essas preocupações estivessem devidamente justificadas e fundamentadas, a decisão de perseguir e realizar sonhos na vida não deve vir acompanhada com o peso da preocupação do dia seguinte, das contas a pagar ou da possibilidade de dar errado.

No lugar de me perguntar “…e se der errado?”, eu preciso sempre perguntar “…e se der certo?”.

Deu certo. E eu sou um cara mais feliz nesse momento.

Paul McCartney subiu no palco montado no Estádio Couto Pereira exatamente às 21h28. Dois minutos antes do horário definido pela organização do evento. Pontualidade mais que britânica. Esbanjando alegria e simpatia, ele cantou por exatas 2h40 (encerrou o “bis” às 00h08, depois de quase 20 minutos de músicas extras). Sem parar. Sem pausa para água ou qualquer outra bebida. Música o tempo todo.

Música em estado puro.

O que dizer sobre Paul McCartney no palco?

 

 

Um músico de 76 anos, cheio de vitalidade, que não transpira. Canta o tempo todo, toca vários instrumentos com uma habilidade notável, e executa as canções de sua vida (e as do disco novo também) com uma assinatura musical singular. Qualquer cover de The Beatles não consegue entregar o resultado orgânico de Sir Paul McCarntey em um palco. É uma experiência singular, tal e como é todo grande show ao vivo de um bom artista. Porém, esse show transcende qualquer experiência terrena nos aspectos musicais.

A banda que acompanha Paul McCartney é um espetáculo à parte. Músicos de altíssima qualidade, com um som que é rico e cheio, de modo que você assimila todas as notas. São músicos que tocam com alegria e descontração, curtindo a vibe positiva natural que esse tipo de música pode oferecer. Ah, sim… um destaque especial para o baterista da banda. Ele é incrível na sua performance.

Eu quero ser esse cara ao fazer música. Aliás, eu queria ser backing vocal da banda do Paul McCartney. Eu sei, estou pedindo alto. Mas agora, eu me permito sonhar alto. Eu acabei de realizar um dos meus maiores sonhos como um ser insignificante vivendo nesse planeta problemático.

Bom, eu sou suspeito para falar. Eu sou um beatlemaníaco confesso. Logo, sempre será uma questão pessoal. Porém, depois de assistir a esse show, eu afirmo com todas as letras: se você não gosta de The Beatles, você não é uma pessoa boa. Você tem problemas sérios. Tem um forte desvio de caráter.

Por fim, é possível constatar em como Paul McCartney sabe dar um show. Uma empatia contagiante, esbanjando carisma, simpatia e bom humor. Arriscou várias palavras em português e trouxe as “colinhas” com textos em nosso idioma, buscando estabelecer uma importantíssima conexão com o público. Sem falar que apresentou uma música composta especialmente para o Brasil, em estilo Bossa Nova, que sempre cai bem.

 

 

Então… a minha ficha ainda não caiu. São 1h44 do dia 31 de março de 2019. Em 30 de março de 2019, eu realizei um dos maiores sonhos da minha vida. Eu vi um Beatle tocar. Eu ouvi a música de Paul McCartney. Eu realmente não consigo acreditar que acabei de ver uma lenda viva executando a sua música para milhares de pessoas que amam essas canções tanto quanto eu amo. Porém, mesmo não acreditando nos meus olhos, o meu coração sabe que foi verdade. O meu coração ouviu cada nota, cada frase, cada harmonia. E aprendeu com tudo isso.

Fazer música é um ato de amor. É a forma mais completa e complexa de expressar sentimentos e pensamentos. É você permitir que a voz do seu coração se traduza em notas. Paul McCartney e sua banda me fizeram entender, mais uma vez, que a boa e verdadeira música só pode ser feita com alegria e muito amor. O resultado final desse processo só pode ser a entrega de novas perspectivas para aqueles que vão ouvir a sua música. A principal missão é fazer o seu ouvinte voltar para casa com o coração mais leve e um pouco mais feliz.

Humildemente, eu agradeço ao Sir Paul McCartney. Obrigado por me fazer um cara mais feliz a partir de hoje. Aliás, eu hoje representei os meus pais, que tanto gostariam de vivenciar a mesma experiência que eu. Mas por me permitir completar um ciclo emocional da minha história musical, eu agradeço ao homem que, ao longo de décadas mudando o mundo com a sua música, mudou a minha vida ao me convencer que “em todas as vezes que você sentir dor, vá com calma, e não carregue o peso do mundo em seus ombros”.

Muito obrigado é muito pouco.

Eu encerro então com um… Let it be!