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Nos deram espelhos, e vimos um mundo doente.


Eu olhava para aquele livro de história, com o gosto amargo de arrependimento na boca. Não porque eu não gostasse da matéria, mas por ver em como a história explica onde estamos no presente.

Como humanidade, fracassamos. Cometemos tantos erros como poderíamos, e mais do que deveríamos cometer. Falhamos miseravelmente nos propósitos mais simples, como em dizer “por favor” e “obrigado” para alguém. Dizer “bom dia” para as pessoas que estão na mesma batalha pela felicidade que nós estamos. Em desejar o melhor para o próximo, esperando que essas boas vibrações retornem para nós de alguma forma.

Nada disso. Somos um fracasso no quesito solidariedade, amizade, companheirismo e cumplicidade. Seja pelo fato de trair nossos companheiros de vida ou passar para trás um colega de trabalho, estamos muito mais propensos a ferir alguém do que deixar que a verdade apareça.

Não me entenda mal. Você, que está lendo esse texto, pode até ser uma pessoa boa de coração. Mas com certeza toma conhecimento de várias das injustiças que o coletivo comete… e fica quieto! Se cala diante dos absurdos produzidos pelas mentes doentes. Logo, você é cúmplice dessas maldades. E seu silêncio só deixa o mundo cada vez mais doente.

Fracassamos também nas coisas complexas. Não alcançamos a paz mundial, não acabamos com as guerras, não aprendemos a perdoar. Continuamos sofrendo pelas mágoas de quem  não sabe amar, e seguimos magoando as pessoas que mais amamos por não amar direito quem nos ama.

Nos tornamos porcos capitalistas. Nos tornamos hipócritas comunistas. Viramos coxinhas e pão com mortadela. Nos separamos pelas diferenças de ideologias políticas falidas e criminosas, em um momento onde deveríamos nos unir para acabar com aqueles que nos separaram como povo. Defendemos a impunidade dos outros querendo justiça contra aqueles que pensam diferente da gente.

É um fato: o ser humano é um fracasso. Porém…

Chegou a hora de fechar os livros… e olhar para o espelho.

Cada um de nós olhou para esse espelho, e não gostou do que viu. O espelho retratou a nossa imagem doente, cheia de mazelas, dificuldades, imperfeições, defeitos e fraquezas. Todos esses problemas que nós mesmos criamos. Vimos em nossa face um mundo doente de medicamentos que nós mesmos fabricamos, na esperança de encontrar a felicidade. Agora, somos apenas viciados no sofrimento, que é combatida (ironicamente) por mais pílulas… fabricadas por homens doentes…

Alguns de nós não aguentaram a imagem que viu no espelho. Não aguentaram tanta dor, e desistiram. Tentaram chorar, mas sem sucesso: o corpo estava tão absorvido pelas mágoas, que as lágrimas não rolavam mais. No final das contas, essas pessoas se entregaram e cessaram suas forças vitais, apenas para que seu corpo ficasse banhado pelas lágrimas daqueles que o amavam.

Não tiveram fé no espelho. Não tiveram fé no futuro.

Muito menos em quem entregou esse espelho.

Aquele. Sim, aquele. Lá em cima. O que comanda tudo.

Aquele que a gente ofendeu, xingou, profanou e machucou tantas e quantas vezes… que nos perdoa até hoje tantas vezes…

Aquele que tenta nos salvar até hoje.

Chame Ele do que quiser. Eu não vou aqui colocar rótulos ou falar em crenças. Mas fato é que: quando era você que estava no chão, chorando sozinho, sangrando e sofrendo, era Ele que estava lá, te estendendo a mão, enxugando suas lágrimas e cuidando de suas feridas. Se você suportou tudo isso de ruim que o mundo tem para oferecer, é porque Ele não te deixou sozinho nesses momentos mais turbulentos.

Então, antes de simplesmente achar que você é vítima porque seus amigos traíram sua confiança e seus sentimentos, de achar que seus bens materiais são mais valiosos que os seus valores morais, de não acreditar que é o presente que se vive de forma plena e intensa, que suas alienações são mais importantes do que qualquer coisa relevante que você pode aprender na vida, ou que viver a vida de forma mais simples pode te levar ao caminho da felicidade…

Pense se você realmente está buscando a cura para os seus problemas nas fontes certas. Pense se você não está matando as melhores coisas que existem dentro de você em troca dos perigos que vão resultar em feridas que não serão fechadas pelos seus “parças”.

Eu sei… quando você estiver na pior, você vai apelar para a tal força superior. Pois Ele é o único que vai entender você e ajudar você, do começo ao fim de sua vida. E Ele jamais vai te abandonar.

Não estou aqui dizendo para você sair por aí e pregar a sua fé para todos ouvirem. Eu acho isso bem pedante. Faça isso para você mesmo. Converse, baixinho, apenas para que o seu coração ouça. Provavelmente Ele vai te ouvir com um baita alto-falante, com o volume no máximo.

A única chance da Humanidade começar a se curar é cada um de nós começarmos a olhar para os espelhos que nos foram entregues. Olhar para o que está errado, feio e quebrado em nós. E começar a consertar tudo. Nós mesmos. Historicamente, deixamos nossas crenças individuais enterradas em nossos sentimentos mais profanos, e fracassamos no projeto de sermos uma espécie de amor e fraternidade.

Mas ainda temos chance.

Afinal de contas, muitos de nós sentem falta da paz jamais vista.

E se esforçam a cada dia para encontrar essa tal paz.

Uma paz que índios já viveram antes do homem branco acabar com tudo. O mesmo homem branco que foi visto como Deus pelos inocentes índios.

É o que a história diz. É o que a história ensina.

É o que o presente nos conta.

“Índios”
(Renato Russo)
Legião Urbana, 1986


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